









 Amores culpados
   Her Texas tycoon
   Jan Hudson
   Cherokee 4


     Jessica voltou em si depois daquele shock e se encontrou com uns olhos muito familiares cravados nela, e uma voz conhecida que tentava tranqiliz-la. Aquele
homem era um fantasma... ou a viva imagem de seu defunto algemo.
     O milionrio Smith Rutledge era um texano vivinho e abanando o rabo e ficou to perplexo como a prpria Jessica ao ver quanto se parecia com seu marido... um
marido que jamais a tinha feito sentir ou desejar o que Smith provocava nela.
     E, embora o magnata texano merecia saber a verdade, isso significava desentupir importantes secretos do passado que podiam fazer muito dano... Enquanto procuravam
respostas, ambos se deram conta de que cada vez compartilhavam mais coisas... incluindo a cama...















     Captulo Um

     Smith Rutledge levantou os olhos de seu prato de macarro para olhar a uma moa com calas curtas e camisa larga. Levava na mo uma bandeja e estava procurando
mesa na abarrotada cafeteria do Harlingen, Texas.
     "Bonitas pernas", foi o primeiro que pensou. Estava admirando o resto quando os olhos da jovem se cravaram nele.
     Smith ia levantar se para lhe oferecer sitio em sua mesa quando viu que ela o olhava com expresso horrorizada.
     -Tom! -gritou.
     Ento, pondo os olhos em branco, deprimiu-se.
     Um motero cheio de tatuagens tropeou com ela e caiu ao cho, lhe atirando a bandeja em cima.
     A ruidosa cafeteria ficou em silncio repentinamente. Smith se levantou de um salto e correu a auxiliar  mulher.
     O motero, talher de molho de tomate, levantou a cabea, perplexo:
     -O que acontece?
     -Creio que se deprimiu. v procurar ao dono da cafeteria -murmurou Smith, tomando o pulso a jovem.
     Estava plida e a bandeja lhe tinha feito um corte na frente.
     O proprietrio chegou em seguida, muito nervoso.
     -J chamei a uma ambulncia. O que passou, senhor Rutledge?
     -No sei, Juan. deprimiu-se e o homem que ia detrs dela tem cansado em cima. Est inconsciente.
     Smith no acrescentou que se deprimiu ao v-lo, como se ele fora Hannibal Lecter, o assassino do silncio dos cordeiros. Enfim, no era to bonito como seu
irmo Kyle, mas no estava acostumado a exercer tal efeito nas mulheres. E quem demnios era esse Tom? Pouco depois chegou a ambulncia e os enfermeiros a colocaram
em uma maca, fazendo perguntas que ele no podia responder. No sabia seu nome e muito menos se era diabtica ou alrgica a algum medicamento.
     Smith tomou sua pesado bolsa e procurou o moedeiro para ver se encontrava algum documento que a identifique-se. Encontrou uma de cor marrom e, ao abri-lo, ficou
gelado.
     No moedeiro da jovem desconhecida havia uma fotografia dela. No s uma, vrias. Mas no podia ser... O no tinha visto aquela garota em toda sua vida. Entretanto,
ali estavam os dois juntos. Era absurdo.
     -Temos que lev-la ao hospital. Como se chama?
     Perplexo, Smith olhou ao enfermeiro que o fazia a pergunta.
     -O que?
     -Como se chama esta jovem?
     -Ah... Jessica Ou'Connor Smith. chama-se Jessica Ou'Connor Smith. Vou com vocs.
     -No pode vir na ambulncia.
     -Ento os seguirei em meu carro.
     Smith guardou o moedeiro e, com a bolsa na mo, saiu detrs da maca.

     Estava sentado na sala de espera, mas os nervos o obrigaram a levantar-se para dar um passeio.
     Levava ali uma hora. Tinha tentado entrar na habitao, mas uma enfermeira a quem lhe importavam bem pouco as doaes que fazia ao hospital, negou-se a deix-lo
passar.
     -Tenho ordens de que ningum a incomode. O mdico falar com voc quando tiver terminado.
     -Pois est tomando-se seu tempo -murmurou Smith para si mesmo.
     Estava preocupado pela mulher, mas sobre tudo estava preocupado pelo que tinha visto em seu moedeiro.
     Nervoso, sentou-se em uma cadeira de plstico e olhou as fotografias de novo. Devia as haver cuidadoso uma dzia de vezes desde que chegou ao hospital. Como
era possvel? No recordava ter visto aquela jovem loira em sua vida.
     Uma vez, anos atrs, bebeu muito tequila com seus amigos e despertou dois dias mais tarde, confuso e com os bolsos vazios, em um velho hotel do Matamoros. Mas
solo tinha ocorrido uma vez e aprendeu a lio.
     Aps, exceto alguma cerveja ou uma taa de vinho durante as comidas, no estava acostumado a beber. Com o cenho enrugado, estudou a fotografia da Jessica Ou'Connor 
Smith. Uma garota bonita com um sorriso de cinema. No teria esquecido a algum como ela. Na foto tinha o cabelo mais curto, mas era a mesma mulher.
     Jessica Ou'Connor Smith, nmero 218 do Elm Street, Bartlesville, Oklahoma, dizia seu documento de identidade.
     Smith no tinha estado nunca no Bartlesville. Tambm encontrou um carto de crdito, o carn de uma biblioteca e vinte e oito dlares em efetivo. Em sua bolsa 
havia todo tipo de cacarecos, mas nada que pudesse lhe dar pistas sobre ela. Nem agenda, nem cartas, nada pessoal.
     O sobrenome Ou'Connor seria seu sobrenome de solteira ou de casada? No levava aliana. Nem sequer tinha a marca de hav-la levado.
     Provavelmente era uma turista, um de tantos visitantes que deixavam atrs o frio para desfrutar da clida temperatura de Rio Grande.
     Smith chamou informao do Bartlesville para localizar a sua famlia, mas a operadora o informou que no havia ningum chamado Ou'Connor Smith naquela direo. 
Que estranho. Possivelmente seu nmero no estava na guia.
     -; Senhor Smith? 
     O levantou o olhar. 
     -Sou o senhor Rutledge.
     -Perdo. Pensei que o sobrenome da paciente era Smith -desculpou-se um homem de bata branca-. No  voc seu marido? 
     -No, sozinho... um conhecido. 
     -Ah, claro.  voc Smith Rutledge, da empresa Smith, S.A, a dos ordenadores, no? Perdoe que no o tenha reconhecido, senhor Rutledge. Evidentemente, o mdico 
estava mais impressionado com suas doaes que a enfermeira. 
     -Como est a senhora Smith? 
     -Confusa e enjoada. O corte na frente no  nada srio, mas creio que tem a boneca fraturada. Agora estamos esperando o relatrio de raios X.
     -Sabem por que se deprimiu? 
     -Por isso ela me h dito, parece que no tinha comido nada em todo o dia e certamente sofreu uma baixada de acar. Estamos fazendo provas, mas seguro que ficar 
bem. 
     -Est acordada? Poderia v-la? 
     -Ainda no, senhor Rutledge. A enfermeira lhe dir quando pode entrar. Quer tomar um caf enquanto espera?
     Smith negou com a cabea e se disps a passear de novo.
     
     Transcorreu mais de uma hora at que a enfermeira foi busc-lo  sala de espera.
     -Temos problemas, senhor Smith. 
     -Senhor Rutledge.
     -Ah, perdo. O mdico insistiu em que deve acontecer aqui a noite, mas ela quer ir-se. Diz que no pode pagar a ateno mdica neste hospital... Mas no pode 
partir. Est mdio atordoada pelos medicamentos e leva um estuque no brao. No pode conduzir assim... voc pode fazer algo? 
     Smith se levantou. 
     -Posso tent-lo.
     A mulher que encontrou na habitao no se parecia muito a que tinha visto na cafeteria, nem  agitada paciente que descreveu a enfermeira. Tinha uma atadura 
na frente e um estuque no brao esquerdo, da boneca at o cotovelo.
     Mas estava dormida como uma menina.
     Com o plido rosto apoiado no travesseiro e as plpebras fechadas, parecia to frgil... algo em seu vulnervel aspecto lhe tocou o corao. Sem saber por que, 
sentiu o desejo de proteg-la.
     -Senhora Smith, senhora Smith... -tentava despert-la outra mulher-. Preciso saber se tiver seguro mdico. Qual  sua direo? Senhora Smith, necessito o telefone 
de algum parente...
     -Deixe-a em paz -interrompeu-a ele. 
     -Mas tenho que saber quem vai pagar a fatura.
     -Eu a nota promissria -disse Smith, tirando um carto de crdito-. Envie a fatura a meu escritrio. E agora, v-se daqui.
     A mulher o olhou, indignada. 
     -Perdoe, mas solo estou fazendo meu trabalho.
     Ele se passou uma mo pela cara. 
     -Sim, claro. Sinto muito.
     Smith ficou olhando a jovem dormida, tentando conter seu desejo de despert-la. Tinha muitas perguntas que fazer, mas no era o momento.
     -Creio que o calmante por fim tem feito efeito -suspirou a enfermeira-. Subiremo-la a planta dentro de uns minutos.
     -Que a ponham sozinha em uma habitao. 
     -Mas eu no tenho autorizao... 
     Smith lhe deu seu carto.
     -Chame o diretor, por favor. lhe diga que quero falar com ele agora mesmo.
     Se Jessica Ou'Connor Smith ficava no hospital essa noite, ele ficaria tambm. No pensava afastar-se daquela mulher at que conseguisse respostas.
     depois de falar com o diretor, Jessica foi ascenso a uma habitao na planta de traumatologa.
     Esperando que despertasse para lhe perguntar pelas fotografias, Smith se sentou em uma poltrona. A meia-noite se sabia de cor cada detalhe de seu rosto, at 
o diminuto lunar que tinha sob a sobrancelha esquerda. Era uma mulher atrativa, de rasgos fortes: mas do rosto altos, lbios generosos e um furinho no queixo, 
embora no to pronunciado como o seu.
     De repente, ela comeou a agitar-se e Smith tomou sua mo, murmurando palavras tranqilizadoras. Naquele momento lhe pareceu o mais natural do mundo. E a jovem 
se agarrava a sua mo como a um salva-vidas.
     Voltou a comprovar que no levava aliana... de fato no levava jia alguma, embora tinha buracos nos lbulos das orelhas.
     A enfermeira lhe tinha dado seu relgio para que o guardasse, um relgio barato, com a correia de plstico. Nada que indicasse quem era sua proprietria.
     Uns minutos antes, Smith tinha comprovado os bolsos de sua cala para ver se levava algo que pudesse lhe dar informao. Mas solo encontrou um caramelo e cinqenta 
centavos.
     Isso sim, descobriu que a talha da cala era a 38, o prendedor uma 85 e as sapatilhas de esporte, do 37.
     A camisa era de talha extra grande e Smith se perguntou se seria de algum homem. Seu marido, possivelmente.
     s duas e meia da manh, Jessica se moveu, inquieta. Parecia estar tendo um pesadelo e seus gemidos lhe rompiam o corao.
     -No passa nada. Tranqila, est bem.
     Ento ela abriu os olhos e, ao v-lo, sorriu. 
     -Tom, est aqui -disse em voz baixa-. Deve ser um anjo.
     Apertou sua mo e voltou a ficar dormida.
     
     Capitulo Dois
     
     Doa-lhe a cabea. E tinha tido um sonho muito estranho. Jessica abriu os olhos e olhou ao redor. Tudo era to branco... onde estava?
     Doa-lhe tudo, os braos, as pernas... Quando conseguiu abrir os olhos de tudo, viu que tinha um estuque no brao esquerdo. A cabea de um homem descansava 
sobre sua perna e em seguida reconheceu o cabelo castanho avermelhado. E lhe ps o corao na garganta. -Tom!
     Mas no podia ser Tom. Tom estava morto. Tinha morrido dois anos antes.
     Entretanto, quando o homem levantou a cabea, eram os olhos verdes do Tom os que a olhavam. To expressivos que telegrafavam seu estado de nimo, como sempre. 
Mas eram claros e serenos, no cheios de dor. E seu corpo era slido e so em lugar de... "OH, Meu deus!". 
     -morri? Estou no cu? 
     -O cu? O que diz? Est no hospital do Harlingen, Texas. No te lembra?
     Jessica piscou vrias vezes, tentando fazer desaparecer a aquele fantasma. Mas Tom no desaparecia e seu corao comeou a pulsar, acelerado.
     -por que... est aqui?
     -Estou aqui para procurar respostas. Quem ?
     -Sou sua mulher. No me reconhece?
     -Vi-te pela primeira vez ontem, na cafeteria. No te tinha visto em toda minha vida. A que est jogando?
     O corao da Jessica pulsava com tal fora, que quase o fazia danifico.
     -No sei de que falas.
     Tentou incorporar-se, mas se enjoou e Tom teve que sujeit-la.
     -No te mova. Tem uma via no brao e deve descansar.
     Aquelas mos grandes sobre seus ombros eram muito clidas e reais. Inclusive podia cheirar sua colnia.
     -Est me assustando. Vete, Tom. Vete. Est morto.
     Jessica fechou os olhos e ficou a rezar.
     -No estou morto. me toque -disse ele ento, pondo uma mo sobre sua cara-. Estou vivo. E no me chamo Tom.
     Ela olhou ao homem: os olhos verdes, o furinho no queixo...
     - igual a Tom. Falas igual a Tom. No entendo o que est passando. Quem ?
     -Sou Smith Rutledge. Smith Aliam Rutledge, presidente do Conselho de Administrao da empresa de informtica Smith, S.A Te soa de algo?
     Jessica negou com a cabea.
     -No, mas eu tenho um ordenador porttil... esse Smith?
     -Esse mesmo. E quem  voc? Quem  esse Tom do que falas?
     -Sou Jessica Ou'Connor Smith. E Tom, Thomas Edward Smith, ... era meu marido.  exatamente...
     Um homem com bata branca entrou ento na habitao, seguido de uma enfermeira.
     -bom dia, Jessica. Sou o doutor Vargas. Como te encontra esta manh? Melhor?
     -Encontro-me bem e quero sair daqui quanto antes. No tenho seguro mdico e esta habitao... A fatura deve ser astronmica. 
     O doutor Vargas sorriu. 
     -No se preocupe pela fatura. comprovei as provas que lhe tm feito e, exceto pela anemia, tudo est bem. Pode ir a casa, mas tem que seguir um regime.  importante 
que coma mantimentos ricos em ferro. 
     Ela levantou a mo engessada. 
     -O que me passou?
     -Fraturaste-te a boneca, mas estar recuperada em menos de seis semanas. Para ento faremos uma nova anlise de hemoglobina.
     -Seis semanas? Mas se eu no vivo aqui. Ia de passagem ao Brownsville... bom, Matamoros. Pensava deixar a caravana em...
     -Conduz uma caravana? Voc sozinha? -perguntou o mdico.
     -Sim, claro.
     -Eu no recomendaria que conduzisse um veculo to pesado por agora. E com a anemia, deveria descansar durante ao menos quinze dias.
     -Mas no posso ficar aqui, doutor Vargas. No conheo ningum e, alm disso, tenho que trabalhar...
     Smith a interrompeu:
     -Eu me encarregarei de que faa o que tem que fazer, doutor.
     -Ah, muito bem, senhor Rutledge -sorriu o homem dando um golpecito a Jessica na mo boa-. Veremo-nos dentro de seis semanas.
     Depois se deu a volta e saiu da habitao.
     -Como que voc te encarregar de tudo? Quem te crie que ?
     Smith sorriu ento pela primeira vez.
     -Pensei que j lhe havia isso dito. Sou Smith Rutledge, o homem que procura respostas. E penso te levar a casa comigo.
     -Disso nada!
     
     No estava segura de como a tinha convencido.
     O diretor do hospital insistiu em que Smith Rutledge era um dos homens mais importantes da cidade, mas Jessica no tinha a mais mnima inteno de ir com ele 
a nenhuma parte.
     Possivelmente os remdios a tinham deixado adormecida ou possivelmente estava perplexa ante seu incrvel parecido com o Tom... O caso era que se encontrou no 
assento dianteiro do esportivo do Smith Rutledge, com um travesseiro debaixo do brao e todas suas coisas em uma bolsa de plstico.
     -Estou preocupada com minha caravana. Quase tudo o que tenho est ali e segue estacionada diante da cafeteria.
     -No se preocupe. Um de meus homens a levou a meu imvel. 
     Ela o olhou, atnita. 
     -De onde tiraste as chaves? 
     -Dessa bolsa enorme que leva. 
     -olhaste dentro de minha bolsa?
     -claro que sim. Como se no ia ou seja seu nome?
     Jessica ia protestar, mas o pensou melhor. Para que discutir?
     -Di-te a cabea?
     -um pouco. Sou muito sensvel aos analgsicos Y... alm disso, tudo isto  muito estranho, como um sonho.
     -J me imagino.
     - incrvel como te parece com meu marido. Tinha ouvido que todo mundo tem um dobro em alguma parte, mas no acreditava at agora. E que coincidncia que nos 
tenhamos conhecido.
     -Eu no creio nas coincidncias -replicou ele, sem olh-la-. E isso dos dobre  uma tolice.
     Atnita pela brusca resposta, Jessica ficou olhando-o um momento.
     -Ento, como o explica?  exatamente igual a Tom.
     -Eu no posso explic-lo. Espero que o voc faa.
     Estavam chegando a um enorme portaln de ferro sobre o que havia um letreiro que dizia "Granja Sugartime". Um guarda lhes abriu a porta.
     -Como posso explicar o que eu mesma no entendo?
     -Falaremos mais tarde. J quase chegamos.
     -Onde?
     -A minha casa.
     Jessica olhou o caminho rodeado de rvores. ao longe se viam imensas plantaes de rvores frutferas.
     -Tudo isto  teu?
     -Sim.
     -O que so?
     -Laranjeiras, limoeiros e toronjas.
     -Muito suco, no?
     Smith assentiu, sorrindo.
     -mais de dois mil acres de terreno.
     -Eu sou alrgica aos toronjas.
     -Alrgica ao plen?
     -No, solo ao suco de toronja. Me encham os lbios e me saem rodelas. Curiosamente no sou alrgica aos limes nem as laranjas. Solo aos toronjas -suspirou 
Jessica, apoiando a cabea no guich.
     -Pois o sinto. Porque meu som os melhores do vale.
     Smith deteve o carro frente a uma casa impressionante. De estilo espanhol, com paredes de estuque e balces de ferro forjado, parecia uma manso da Beverly 
Hills.
     No jardim, buganvillas, magnlias e todo tipo de flores. Frente  casa, uma fonte de pedra com trs canos. 
     -Que maravilha! 
     -Obrigado.
     Jessica seguia olhando boquiaberta quando ele a ajudou a sair do carro. Doa-lhe tudo ao mover-se, mas tentou no demonstr-lo.
     -Tem que tomar outro analgsico. Espero que a enfermeira j tenha chegado. 
     -Que enfermeira? 
     -A que vai cuidar de ti. 
     -Por favor! Outro analgsico  quo ltimo necessito. E tampouco necessito uma enfermeira. Solo tenho uma pequena fratura na boneca.
     -E anemia. O doutor Vargas h dito que precisa cuidados.
     -O que cuidados? Umas pastilhas de ferro, um par de filetes de fgado e estarei como nova. No me passa nada.
     -Eis aceito fiscalizar sua recuperao e penso faz-lo, Jessica. 
     -Mas...
     -Vamos a seu dormitrio. Falaremos mais tarde.
     -Um momento! Ningum te h dito que mandas muito? -replicou ela, irritada. Smith sorriu. -Ultimamente, no.
     -Tm-lhe medo ao chefe, n? Pois deixa que te diga uma coisa: eu no gosto que me dem ordens. Pode que seja o dono de uma empresa millonada... mas no  meu 
chefe, assim me deixe em paz. Nem sequer sei por que eis aceito vir aqui.
     -No me diga?
     Suas palavras tinham um claro dobro sentido, mas Jessica estava muito enjoada para seguir discutindo. Quo nico desejava era tombar-se e dormir durante cinco 
dias.
     Ia dar um passo adiante, mas se tropeou.
     -Cuidado -disse ele, tomando-a do brao.
     Uma mulher alta saiu ento da casa.
     -Ol, sou Kathy McCauley, sua enfermeira. Deixe que a ajude.
     -Estou bem -insistiu Jessica-. Solo um pouco enjoada pelos calmantes...
     Mas tropeou de novo e Smith tomou em braos.
     -No est bem.
     -me solte! Estou perfeitamente.
     -Deixa de protestar. Alm disso, pesos menos que uma pluma.
     -Isso no  verdade.
     -Eu fao pesos e te asseguro que  muito ligeira.
     Jessica deixou escapar um suspiro. Estava muito cansada para brigar com ele. Quando apoiou a cabea em seu ombro, pareceu-lhe a coisa mais natural do mundo.
     E se sentia segura. Pela primeira vez em anos, sentia-se segura.
     
     Quando esteve instalada em sua habitao e a enfermeira a informou que se ficou dormida, Smith se dirigiu ao celeiro. A caravana, um veculo velho que tinha 
visto dias melhores, estava estacionada a um lado do edifcio.
     Como j tinha sido objetivo de algum vigarista, pensou chamar a seu chefe de segurana, mas decidiu no faz-lo. Poderia solucionar aquele assunto ele slito.
     Smith vacilou sozinho um momento antes de abrir a porta da caravana. Devia registr-la se queria respostas.
     Em um velho arca encontrou trs pares de jeans, duas camisas, cinco camisetas, sapatilhas de esporte... todo roupa usada e de pouco valor, exceto uns jeans 
de desenho.
     Em um pequeno armrio havia um casaco de couro negro e uma jaqueta. Tambm ali, em bolsas de plstico, viu dois trajes de jaqueta, um vestido e trs blusas 
de seda.
     Ele no sabia muito de roupa feminina, mas pareciam objetos caras. Entretanto, no tinham etiquetas. "Que estranho", pensou.
     alm de uns sapatos de salto havia uns mocasines de ante e um par de modernas botas.
     Encontrou tambm natas, produtos de beleza... todos eles baratos. Os nicos produtos caros eram amostras gratuitas, sobre tudo frasquitos de colnia.
     As nicas jias: uns pendentes de ouro, outros de prata e um broche em forma de mariposa.
     Os armaritos da cozinha continham cereais, manteiga de amendoim, po de molde, bolachas e latas. Muitas latas. Se se alimentava assim, era lgico que tivesse 
anemia.
     A colcha da cama estava feita  mo e o travesseiro tinha uma bonita capa de cetim azul. Em cima, um macaco de peluche. O boneco mais horroroso que tinha visto 
em toda sua vida.
     Frente  cama, adesivos com frases de nimo para comear o dia: "que abandona perde a carreira", "o que sua mente pode conceber, voc pode levar a cabo". E 
um velho provrbio cherokee: "Que sua viso no se veja nublada pelo medo".
     Isso estava marcado em rotulador amarelo.
     debaixo da cama encontrou uma gaveta com livros, uma lanterna, uma mquina de costurar e um mesa de costura. Sob o assento da cozinha, uma maleta fechada, um 
ordenador porttil e uma pequena impressora.
     alm disso, caixas. Montes de caixas. E a maioria continham bolsas. Havia mais bolsas que em uma loja. Quase todos eram do mesmo estilo: metade mochila, metade 
bandoleira, com vrios bolsos. Estavam confeccionados com tecido vaqueiro ou couro negro e marrom.
     Outros eram bolsitos de festa com flores bordadas, lentejoulas, cristalitos... Todos diferentes. Havia material para fazer as bolsas e, por fim, cajitas pequenas 
dentro de outras caixas. Eram de cor nata e tinham uma asa dourada de tecido. Nas tampas, o nome da Jessica Milhares escrito em letras douradas.
     Quem demnios era Jessica Milhares? Evidentemente, a criadora das bolsas. Smith abriu a ltima caixa: material de escritrio. alm de flios, um livro de pedidos 
e cartes profissionais. Todas anunciando as bolsas da Jessica Milhares, com uma direo do Oklahoma e uma pgina Web. Smith se guardou uma no bolso e colocou um 
pouco de roupa em uma bolsa.
     Pouco depois saa da caravana com a bolsa, o ordenador e a maleta. Quando a Bela Adormecido despertasse, saberia tudo sobre ela.
     
     Captulo Trs
     
     Jessica abriu os olhos de repente. Estava absolutamente acordada. O problema era que no reconhecia a habitao.
     Nada lhe parecia familiar, mas assim que apartou o edredom, a dor na boneca lhe recordou onde estava. Igual  bata de hospital.
     Ento o recordou tudo. Smith Rutledge. O homem que se parecia tanto ao Tom. E que se chamava Smith de nome, em lugar de sobrenome. Tudo muito estranho.
     Acendeu a luz e olhou o despertador. As oito. Da manh ou da tarde?
     Jessica olhou ao redor. Os mveis eram de estilo espanhol, as paredes estavam pintadas em cor nata e o estou acostumado a era de ladrilhos cor terracota.
     O cabecero da cama, de cor amarela plida igual s mesinhas, era de madeira muito clara, com um desenho de flores pintado em tons verdes. Era o trabalho de 
um bom arteso. Um trabalho magnfico.
     Nesse momento se abriu a porta da habitao e entrou uma enfermeira.
     -Ah, j est acordada. ia despertar a agora mesmo. O senhor Rutledge no queria que se perdesse outra comida.
     -Outra comida?
     -So quase as oito e o senhor Rutledge pensou que gostaria de jantar na terrao. Gosta?
     -Suponho que sim -murmurou Jessica-. Devo ter dormido tanto pelos calmantes. Eu nunca tomo mais uma aspirina... Sinto muito, no recordo seu nome.
     A enfermeira sorriu.
     -Sou Kathy McCauley. Quer lavar-se um pouco?
     -Sim, obrigado.
     Tremiam-lhe um pouco as pernas, mas conseguiu apoiar-se no lavabo. Ali havia uma escova de dentes novo e um monto de natas e produtos de banho. Jessica se 
fixou em que tambm sua ncessaire estava ali.
     -Rosa trouxe suas coisas da caravana -explicou-lhe a enfermeira.
     -Quem  Rosa?
     -O ama de chaves. Quer que a ajude a escovar o cabelo?
     -Sim, por favor. Fazer coisas com o estuque me vai resultar difcil -suspirou ela, deixando cair sobre um tamborete forrado de raso.
     -No se preocupe, em seguida se acostumar -sorriu Kathy.
     -Incomoda-me no poder fazer as coisas por mim mesma.
     - normal, mas necessita uns dias de descanso... J est. O que lhe parece?
     Jessica se olhou ao espelho.
     -Muito bem. Deveria fazer-se cabeleireira.
     -Sou-o. Tenho trs filhas -riu a enfermeira-. Espere, vou trazer lhe um penhoar. Por certo, enquanto estava dormida fui a comprar um par de vestidos de manga 
larga para que no tenha problemas com o estuque. Tambm comprei sapatilhas e um par de coisas mais.
     Quando voltou, levava na mo uma camisola azul com bata a jogo.
     -Kathy, eu no posso pagar isso. Mas se deve haver flanco uma fortuna... Prefiro me pr uma camiseta e uma cala de esporte.
     -No tem que me pagar isso Carreguei-o  conta do senhor Rutledge. Tem muita sorte de que esteja louco por voc. alm de muito bonito  o homem mais rico do 
vale. E lhe asseguro que estas compras no tm feito trinca em sua conta corrente.
     -Louco por mim? Do que est falando?
     -Vamos, vamos... o pobre esteve pego a sua cama at que voltei s compras. Venha, fique o El camisn azul era como un sueo. Y la bata, con mangas de kimono 
y cuello cerrado, la haca sentir elegante incluso con aquella estpida escayola. Kathy insisti en que se pusiera un poco de colorete y brillo en los labios.
     A camisola azul era como um sonho. E a bata, com mangas de quimono e pescoo fechado, a fazia sentir elegante inclusive com aquele estpido estuque. Kathy insistiu 
em que ficasse um pouco de ruge e brilho nos lbios.
     -V-o? Com um pouquinho de cor est fabulosa. Disposta para jantar?
     -Mais que disposta, faminta. Voc vai jantar conosco?
     -Disso nada -sorriu a enfermeira-. Penso deix-los sozinhos.
     Smith Rutledge tinha os ps apoiados no corrimo da terrao. Ao v-lo, Jessica se surpreendeu de novo. Era incrvel. Ao Tom tambm gostava de fazer isso. Estava 
acostumado a arreganh-lo porque se danificava as botas... mas as botas de seu marido no eram to caras como as que levava Smith. Para ouvir seus passos, ele se 
levantou. 
     -Est muito bonita.
     Jessica tocou sua trana e se voltou para a Kathy... mas Kathy tinha desaparecido.
     -Obrigado. No sei quando poderei te pagar tudo isto. Pode que tarde um pouco. Meu negcio... 
     -Tem problemas econmicos? 
     -Temo-me que sim. Acabamos de comear. 
     -Acabamos?
     -Meu scia e eu. Shirley Milhares.
     -Ah, da o nome de Bolsas Jessica Milhares. combinaste seu nome e o sobrenome de sua scia.
     -Como sabe o da Jessica Milhares?
     -Pois... encontrei um carto quando tirava suas coisas da caravana.
     -Pensei que tinha sido Rosa.
     -Tirei-as eu. Rosa as levou a sua habitao -explicou Smith, apartando uma cadeira.
     Que ele tivesse estado olhando entre suas coisas a fez sentir incmoda. Mas tentou dissimular tomando um sorvo de suco de laranja.
     -Est muito rico.
     -Obrigado.  de minha plantao de laranjeiras valencianas.
     -No so laranjas nativas?
     -As nativas maturam antes, as valencianas em fevereiro e duram at abril ou maio.  uma pena que no possa tomar toronja. Os que ficam agora nas rvores so 
muito doces.
     -J te contei o da alergia...
     -Sim, sei. Mas se supe que o suco de laranja faz que se assimile melhor o ferro dos mantimentos... e quanto mais fresco, melhor. Assim tome o tudo -sorriu 
Smith, lhe servindo uma enorme poro de salada de espinafres-. Os espinafres contm muito ferro.
     -Se me como tudo isto, poder me levantar com um m.
     -Passei-me?
     -Um pouquinho.
     -Come o que possa e deixa o resto. Ric chegar em seguida com o segundo prato.
     Comer com a mo direita lhe resultava difcil. E faz-lo com ele olhando-a, impossvel.
     - que me resulta incmodo... sou canhota.
     -No se preocupe. me fale de seu negcio. Vrgula comeou?
     -Shirley e eu tnhamos falado disso muitas vezes. Eramos professoras no mesmo instituto e queramos ganhar mais dinheiro do que ganha no ensino, assim decidimos 
abrir um negcio. Como eu estava acostumado a desenhar minhas prprias bolsas, pareceu-nos que merecia a pena tent-lo.
     - professora? 
     -Sim, de desenho. 
     -E deixaste o instituto? 
     -pedi excedencia durante um ano. Shirley tem dois meninos, assim decidimos que ela levaria as coisas de casa e eu me atiraria  estrada. 
     -Para que?
     -Para procurar negociados. visitei centenas de boutiques. Nosso modelo ergonmico  o mais solicitado...
     -Modelo ergonmico? 
     Jessica sorriu.
     - uma idia que me ocorreu quando Shirley se fez mal nas costas. H outros no mercado, mas eu creio que o meu  um bom desenho... alm disso, costa mais barato. 
     -E os fazem em uma fbrica? 
     -O marido do Shirley tem uma tapearia e sua equipe  o que faz o trabalho. A bolsa ergonmica est desenhada para que possa colocar de tudo sem que apesar 
muito. Assim no lhe doem nem os ombros nem as costas.
     -Que interessante. Ter que me explicar como funciona.
     -A sua noiva gostaria de ter um. Inclusive posso bordar seu nome ou suas iniciais se quiser. Prefere tecido vaqueiro ou couro? 
     -No tenho noiva.
     -Um homem to bonito como voc? -sorriu Jessica-. No me acredito.
     -Pois  verdade.
     -E que tal sua secretria ou as garotas de seu escritrio? Essas bolsas so um bom presente de Natal...
     Smith levantou as mos em sinal de rendio.
     -De acordo. Quero uma dzia. 
     -Oxal todas as vendas fossem to fceis -riu ela.
     -O negcio no vai bem?
     -No vai mau, mas  difcil fazer-se com uma carteira de clientes. Sobre tudo, para as bolsas de festa. Esses so os que do mais dinheiro. So criaes nicas 
que quero vender em boutiques exclusivas Y... -Jessica se mordeu os lbios-. Temos um stand contratado na feira de Dallas para meados de abril e devo terminar o 
inventrio, mas no sei como vou fazer o com este estuque.
     -No se preocupe, tudo se arrumar.
     -Mas  que temos outro stand no Corpus Christi o fim de semana que vem e em Houston depois disso. E, alm disso, tenho que localizar a uma mulher no Matamoros 
-disse ela ento, com expresso angustiada.
     Um jovem apareceu nesse momento com uma bandeja.
     -Obrigado, Ric. terminaste sua salada, Jessica?
     Ela assentiu, surpreendida ao ver que quase a tinha comido toda.
     Ric serve o segundo prato e desapareceu.
     Era um filete de fgado encebollado.
     -Muito ferro, n?
     -Segundo o mdico, isto  o que deve comer.
     Ela odiava o fgado, mas no queria insultar a seu anfitrio. De modo que atacou o filete, tomando a maior quantidade possvel de pur de batatas para passar 
o gole.
     -Agradeo-te muito o que est fazendo por mim. Mas no se preocupe, partirei-me amanh.
     -O mdico h dito que no deveria conduzir. E no creio que possa levar a caravana com uma mo engessada.
     -Poderia ficar em casa do Shirley... 
     -Ou poderia ficar aqui. 
     -Durante seis semanas? No posso fazer isso. Nem sequer nos conhecemos Y...
     -O vinho tambm  bom para a anemia. Quer uma taa? 
     -No bebo, obrigado.
     -Eu tampouco estou acostumado a beber -suspirou Smith-. Me fale do Tom.
     Jessica deixou o garfo sobre o prato. 
     -O sim bebia.
     -Tinha um problema com o lcool?
     -A noite do acidente tinha estado vendo uma partida com seus amigos Y... bebeu muito. Por isso chocou contra um muro quando voltava para casa.
     -Morreu?
     Ela negou com a cabea.
     -lesou-se o espinho dorsal. Morreu de pneumonia um ano depois.
     -Sinto muito.
     -Obrigado -murmurou Jessica, tentando tomar outro bocado. Mas lhe resultava impossvel-. No posso comer mais.
     -Nem sequer a sobremesa?
     -Embora fora de chocolate.
     -Creio que  um bolo de damasco. J sabe que os damascos so muito...
     -Ricos em ferro -terminou ela a frase.
     -me conte mais coisas do Tom. A que se dedicava?
     -Antes do acidente?
     -Sim, claro.
     -Tinha uma oficina de reparao de ordenadores no Bartlesville... ali  onde vivamos. Era um gnio dos ordenadores. E tambm tnhamos uma granja com jardim 
e um pequeno horta. Tom podia plantar algo e crescia em seguida... inclusive rosas. Tnhamos uma roseira preciosa. E adorava montar a cavalo. No poder faz-lo foi 
para ele... -Jessica no terminou a frase, afogada pelas dolorosas lembranas-. Sinto muito, mas estou muito cansada. Importa-te se for a minha habitao?
     Smith se levantou.
     -Perdoa. Deveria me haver dado conta de que ainda est convalescente. Mas, como pode imaginar, estou muito interessado nesse homem que tanto se parece comigo. 
Deixa que te acompanhe.
     Jessica no discutiu. Estava cansada, e falar do Tom era quo ltimo desejava fazer. J tinha sofrido muito.
     -Espero que possa me perdoar se te fizer um par de perguntas mais sobre seu marido. Tinha famlia?
     -Sua me, morreu faz vrios anos e sua av tem Alzheimer. Est em uma residncia e j nem sequer me reconhece. s vezes me chama Ruth... assim se chamava a 
me do Tom.
     -J vejo. Espera, vou chamar a Kathy.
     -No faz falta, obrigado.
     -Segura?
     -Segura.
     Com inapetncia, Smith saiu da habitao. Ela sabia que desejava fazer mais pergunta sobre o Tom, e era lgico. Mas estava muito cansada e no queria recordar 
o passado. J era suficientemente estranho olhar ao Smith e ver seu defunto marido. Quase poderiam ter sido irmos gmeos.
     Mas eram pessoas muito diferentes. Sua forma de mover-se, seu comportamento... era difcil descrever as diferenas. E pensar nisso fazia que lhe doesse a cabea.
     
     Smith ficou olhando a fotografia na tela do ordenador. A fotografia do Tom e Jessica. Tinha-a escaneado... de fato, tinha escaneado toda a informao que encontrou 
sobre a Jessica Ou'Connor Smith, inclusive o carn da biblioteca.
     Usando o camundongo, encontrou a guia de telefones do Bartlesville e procurou o Shirley Milhares e Estofados Milhares. Ambos existiam. De modo que, se estava 
tentando extorqui-lo, tinha uma boa intriga montada.
     Mas quanto mais a conhecia, menos podia acreditar que fosse uma vigarista. Parecia uma pessoa sria e decente.
     De novo voltou a tirar a fotografia. 
     - minha primo? -murmurou-. Poderia ser... meu irmo? Chama-te Smith. Eu me chamo Smith. Qual  a conexo?
     Sua me lhe havia dito que lhe ps esse nomeie por um filme em que o muito bonito protagonista se chamava assim. Mas, seria certo? Smith ficou pensativo. Seu 
irmo? supunha-se que seu irmo era Kyle Rutledge. Mas no o era.
     
     Captulo Quatro
     
     Smith no tinha visto ningum de sua famlia em mais de trs anos. E as coisas seguiriam igual se Kyle no tivesse aparecido em seu escritrio uns meses antes, 
pilhando-o despreparado.
     -Senhor Rutledge... seu irmo veio a v-lo.
     Smith apertou o auricular.
     -Meu irmo?
     -Diz que  seu irmo, Kyle Rutledge. Alto, loiro, bonito, com um sorriso de cinema. Digo-lhe que acontecer?
     Smith vacilou. Mirna era muito bocudo. Se no fora to boa secretria, a teria despedido muito tempo atrs. E como Kyle sabia que estava no despacho, no tinha 
mais remedeio que v-lo.
     -lhe diga que acontecer -suspirou por fim, tirando um monto de papis da gaveta para parecer muito ocupado.
     Tinha perdido interesse na empresa; de modo que, uns meses antes, contratou um novo diretor geral e se subiu a presidente. Aps no tinha muito trabalho.
     Kyle entrou sorrindo de orelha a orelha.
     -Ol, Smith.
     -Que demnios faz aqui?
     -Como no me devolve as mensagens, vim para comprovar se seguia vivo. Me alegro de verte -sorriu seu irmo. Quando ia lhe dar a mo, Kyle lhe deu um abrao 
de urso-. passou muito tempo.
     Smith tentava manter-se reservado, mas se alegrava de ver o homem com o que tinha crescido.
     -Como trata a vida ao famoso cirurgio plstico?
     -Muito bem. Irish e eu no podemos nos queixar. A clnica de Dallas no poderia ir melhor e vamos ter um filho.
     -Um filho? Isso  fantstico. Sente-se e conta-me o tudo. Sinto me haver perdido suas bodas... Tinha que ir a China e no podia me liberar da viagem. J sabe 
como so os negcios.
     Kyle se sentou frente ao escritrio fazendo uma careta.
     -Pensei que estava no hospital. Um acidente de moto, no era isso?
     -Sim, bom,  verdade... O da viagem a China foi nas bodas do primo Matt. Quer um caf?
     Seu irmo negou com a cabea.
     -No, obrigado. tomei dois no avio.
     -Um suco de laranja?
     -Nada, obrigado. Nada, exceto algumas respostas.
     -Sobre o que? -perguntou Smith, tentando dissimular. Mas tinha um n no estmago.
     -Sobre o que passa contigo. Durante os ltimos trs anos ningum te viu o cabelo. No chama, no escreve, no aparece em nenhuma das festas familiares... Envias 
postais e flores, mas  como se no queria saber nada de ns. O av Pete est preocupado e embora papai te desculpa por tudo, asseguro-te que tambm o est. E cada 
vez que algum menciona seu nome, a mame lhe enchem os olhos de lgrimas. O que acontece, Smith?
     -Nada -respondeu ele-.  que tenho muito trabalho, j sabe. Ter que trabalhar muito para dirigir uma das empresas de informtica mais importantes do pas... 
por no falar das plantaes de ctricos. Sabe que  a empresa que criou mais empregos nesta zona do Texas?
     Kyle sorriu.
     -A mim no tem que me vender sua empresa, Smith. Comprei aes quando saram ao mercado.
     -Ah, sim?
     -Sim. E pensava que teria mais tempo livre desde que decidiu contratar a um novo diretor geral.
     -Tenho menos trabalho, mas sigo muito ocupado.
     -Papai e mame agradeceriam uma chamada de vez em quando. E o av tambm. O que passou, Smith? Voc e eu nos levvamos muito bem.
     -A vida, Kyle. Assim  a vida. As coisas no so to singelas como quando fomos pequenos.
     -Sei -suspirou ele-. Tem tempo para comer com seu irmo? Volto para Dallas no avio das cinco.
     Smith olhou seu relgio.
     -Sim, claro. vou chamar a Rosa para que prepare algo. Assim te ensinarei a plantao.
     Aquela tarde, durante um par de horas, voltaram a ser irmos de novo. Rendo, contando-se coisas, compensando o tempo perdido.
     Quando terminaram de comer, Kyle se apoiou no corrimo da terrao.
     -Vejo que est muito enganchado com este vale.
     Smith se encolheu de ombros.
     -Eu gosto de muito, sim.
     -Tem uma casa muito bonita. Recorda a que Jackson comprou em Austin.
     Jackson e Matt Crow eram suas primos, com os que se criaram em Dallas.
     -Jackson vive em Austin?
     -Sim. Est na Comisso de Transportes.
     -Jackson trabalhando na administrao?
     Kyle sorriu.
     - que se apaixonou. E j sabe que o amor nos obriga a fazer coisas estranhas. Creio que vai casar se dentro de pouco, assim que convena a Olivia. Parece que 
todos os netos do Cherokee Pete esto caindo na armadilha... exceto voc. Ou me equivoco? Por isso no tornamos a verte?
     Smith negou com a cabea.
     -No tenho tempo para noivas -murmurou, olhando seu relgio-. Se tiver que tomar um avio, ser melhor que te leve a aeroporto.
     No estacionamento, Kyle duvidou um momento antes de descer do carro.
     -No sei muito mais que antes de vir... exceto que parece estar muito so. Sei que te acontece algo, mas no posso te ajudar a menos que me conte isso, Smith. 
Pode me chamar quando quiser. Quero-te muito, irmozinho. Sempre te quererei. E, por favor, chama mame de vez em quando.
     Smith assentiu com a cabea. No se atrevia a dizer nada. Quando Kyle saiu do carro, sentiu como se tivesse um buraco no peito. Estava triste, mais que nunca.
     Tinha estado a ponto de lhe contar a verdade, mas no queria complicar as coisas.
     Teria sido to singelo... Solo tinha que lhe perguntar que grupo sangneo era, embora j sabia. Kyle era AB negativo, como seu pai. Um  grupo sangneo muito 
estranho. Smith era Ou positivo, um grupo comum que pensava devia compartilhar com sua me.
     Mas trs anos antes comprovou que sua me era A negativo.
     Kyle e ele no eram irmos. E tampouco era filho natural de seus pais. Impossvel.
     Tinha consultado com uma dzia de peritos no campo da gentica. Era impossvel estar aparentado com sua suposta famlia.
     Smith voltou para o escritrio sentindo-se pior que nunca. Pensava que quase o tinha esquecido, mas a visita do Kyle fez que o recordasse todo outra vez... 
embora nunca pde esquec-lo.
     Mirna levantou o olhar do teclado ao v-lo entrar.
     -Boa tarde, senhor Rutledge. Espero que o tenha passado bem.  difcil acreditar que o doutor Rutledge seja seu irmo... No se parecem em nada. Ele  loiro, 
voc tem o cabelo castanho. Ele tem os olhos azuis, voc verdes...
     -Kyle se parece com seu pai -interrompeu-a Smith.
     -Ento, voc deve parecer-se com sua me. 
     -Quem sabe? -murmurou ele, fechando seu escritrio de uma portada.
     No havia tornado ou seja nada do Kyle nem de sua famlia aps.
     No sabia quem eram seus pais naturais e no podia perguntar. Trs anos antes, quando teve provas de que no podia ser um Rutledge, interrogou a sua famlia. 
Sua me comeou a chorar e seu pai ameaou jogando o de casa por lhe dar esse desgosto.
     Smith tentou falar com o av Pete e sua tia Anna Crow, a me do Jackson e Matt. Os dois negavam saber nada do assunto. uniram-se  conspirao de silncio.
     De fato, Anna lhe disse que isso de ser adotado era uma idia ridcula.
     -Sara  sua me natural, Smith. Eu a visitei na Saint Louis quando estava grvida de seis meses e sigo tendo o anncio de seu nascimento trs meses mais tarde. 
Est em um lbum.
     Apesar do que disse sua tia, Smith sabia que a histria de seu nascimento era uma elaborada mentira. Tinha os documentos que o provavam. Os fatos eram indiscutveis.
     Durante trinta e quatro anos tinha vivido uma mentira. No podia suport-lo e por isso decidiu no voltar para casa. Nem em Natal, nem  bodas do Kyle, nem 
a do Matt...
     Enviava presentes extravagantes junto com uma nota de desculpa, mas no havia tornado a falar com ningum. Nem sequer com o Cherokee Pete, aquele velho ao que 
adorava, depois de que se negou a lhe contar a verdade.
     Seu stio naquela casa tinha trocado de forma irrevogvel. No era sua famlia. No sabia quem era.
     E a nica pessoa que sabia no queria dizer-lhe No, Kyle Rutledge no era su hermano. Pero ni siquiera Mirna podra negar que Tom Smith s lo era.
     Smith olhou de novo a fotografia da Jessica e Tom na tela do ordenador.                         
     No, Kyle Rutledge no era seu irmo. Mas nem sequer Mirna poderia negar que Tom Smith sim o era.
     O parecido era to incrvel, que no podia ser acidental. E era uma fotografia autntica, no uma montagem. Tom e ele estavam aparentados. Tinham que est-lo.
     "Minha famlia. Ele era minha famlia", pensou.
     E tinha chegado muito tarde.
     Apagando o ordenador de um zarpazo, Smith se levantou e se dirigiu aos estbulos.
     Jessica Ou'Connor Smith tinha a chave de seu passado. Estava completamente seguro.
     E queria respostas. No pensava abandonar at que, de uma vez por todas, soubesse tudo o que queria saber.
     
     No podia at-los cordes das sapatilhas. Frustrada, Jessica atirou uma delas ao outro lado da habitao, justo quando Kathy abria a porta.
     -Uy! -exclamou quando a sapatilha passou por cima de sua cabea-. Estamos tendo uma chilique, n?
     Jessica soltou uma gargalhada.
     -H tentando alguma vez te atar os cordes da sapatilha com uma s mo?
     - um cilindro, sei. irei comprar te umas sandlias ou uns tamancos. Assim estar mais cmoda. Mas Rosa ou eu podemos te ajudar, no tem que faz-lo sozinha.
     -Eu no gosto de depender de ningum. E no necessito uma enfermeira... embora agradea muito sua ajuda, Kathy. Mas j estou bem.
     -Eu tampouco creio que me necessite, mas o senhor Rutledge insiste em que fique uns dias. E com o que me paga, espero que me agente um pouquinho mais -sorriu 
a mulher-. Com esse dinheiro quase posso pagar a universidade de minhas filhas.
     -Ah, nesse caso... -disse Jessica com um sorriso.
     -Sente-se, vou arrumar te o cabelo. Parece que no dormiste bem, n?
     Ela negou com a cabea. Tinha dormido fatal. A imagem do Smith Rutledge aparecia em seus sonhos constantemente. Tinha tantas das qualidades que tinha admirado 
no Tom... e nenhum de seus defeitos.
     Era o que Tom poderia ter sido se no se equivocou de caminho. Alm disso, Smith era um homem muito atrativo... e ela levava sozinha muito, muito tempo.
     -me conte o que sabe do Smith. 
     -alm de que  muito rico? 
     -Sim, alm disso.
     -No sei nada sobre sua vida privada, solo o que tenho lido nos peridicos. Doa milhes a hospitais e causas benficas... mas suponho que isso j sabe.
     -No. A verdade  que no sei nada dele. 
     Kathy estava a ponto de dizer algo quando bateram na porta. 
     -Sim?
     Smith apareceu a cabea na habitao. De novo, como cada vez que o via, Jessica se surpreendeu ante o incrvel parecido com seu marido.
     -Lista para tomar o caf da manh? 
     -Lista -respondeu Kathy por ela-. J est. 
     Jessica se levantou, estirando-a camiseta. 
     -No tenho muita fome, mas eu gostaria de tomar uma taa de caf. Quer tomar um, Kathy?
     -No, obrigado. J tomei o caf da manh e tenho que ir comprar umas coisas.
     Smith roou suas costas enquanto a acompanhava ao ptio; o roce a fez sentir um calafrio. Uma reao estranha... embora devia admitir que, alm de bonito, tinha 
algo que a atraa poderosamente.
     Sempre lhe tinham gostado dos rasgos do Tom, mas a seu marido faltava a segurana do Smith, aquela confiana em si mesmo que o fazia ainda mais atrativo.
     Tom sempre teve um ar abatido, no covarde, mas bem resignado a sua sorte e furioso por isso.
     Smith a levou at uma mesa ao lado da piscina. Ali a esperava um bol cheio de morangos e um enorme copo de suco de laranja.
     -E o caf?
     -Tomaremos mais tarde. Os peritos em nutrio dizem que a cafena interfere com a absoro de ferro. Jessica levantou uma sobrancelha.
     - possvel, mas me anima muito. No posso fazer nada se no tomar um par de taas de caf.
     -Tomaremos caf depois de tomar o caf da manh.
     -Que mando .
     -Isso  verdade -riu Smith-. Te coma os morangos. E logo pode tomar cereais com passas e nozes, ou uma omelete de presunto e queijo.
     -Prefiro um croissant e uma taa de caf. 
     -Sinto muito, mas no  possvel. 
     -Pois ento, cereais. Por certo, usei o telefone. Espero que no te importe. Tinha-me ficado sem bateria no mvel e tinha que falar com o Shirley. 
     -Sua scia?       
     Ela assentiu. 
     -Pagarei-te a chamada. 
     -No faz falta.
     Jessica ia discutir, mas decidiu no faz-lo. depois de tomar o caf da manh, quando se tinha comido todos os cereais, as passas e as nozes, Smith lhe serve 
uma taa de caf. 
     -Ah, obrigado. Por fim.
     Enquanto tomavam o caf, observou-o atentamente. Smith era mais musculoso que Tom, mas tinha o mesmo queixo quadrado, o mesmo furinho, a mesma cor de pele, 
os mesmos olhos. Levava o cabelo melhor talhado, mas era do mesmo tom castanho avermelhado do que tanto se queixava seu marido.
     E sua voz... se fechava os olhos poderia acreditar que era Tom. Eram to parecidos e, entretanto, entre eles havia enormes diferencia.
     Smith lhe serve uma segunda taa de caf. 
     -me fale dele. 
     -De quem?
     -Tom. Sei que estava pensando nele, nos comparando.
     -O que quer saber?
     -Quero saber quem eram seus pais, como cresceu, essas coisas...
     Jessica observou o sol jogando com a gua da piscina.
     -No conheceu seu pai e sua me no queria falar dele. Quando ela morreu, Tom tinha sete anos e foi se viver com sua av no Bartlesville. Quando lhe perguntava 
por seu pai, ela sozinho lhe dizia: "era um desses hippies com os que foi se viver. Ou seja quem deles era seu pai".
     Smith fez uma careta.
     -Dizia-lhe isso a um menino?
     -A av Lula era uma mulher amargurada. A verdade, ao Tom teria ido melhor se se tivesse criado em um orfanato, como eu.
     -Voc cresceu em um orfanato?
     -Dos cinco anos. Suponho que isso foi o que nos uniu... os dois tivemos uma me alcolica. Felizmente, meus pais adotivos me ajudaram a agent-lo. A av do 
Tom, justamente o contrrio.
     -Sua me era alcolica?
     -E drogada, creio. Ao Tom no gostava de falar disso mas, por isso sei, viviam quase da caridade e trocavam de cidade continuamente. Inclusive passaram fome.
     Smith se passou uma mo pelo cabelo, nervoso.
     -Que horror.
     -Ao menos sua av lhe deu de comer e o levou a colgio. Tom era muito inteligente.
     -Foi  universidade?
     -Conseguiu uma diplomatura em informtica enquanto trabalhava em cem mil ofcios. Eu queria que terminasse os dois anos que ficavam para a licenciatura, mas 
j tinha seu negcio de reparao de ordenadores e no gostava. Alm disso, estvamos prometidos.
     -Quanto tempo estiveram casados? 
     -Sete anos. Saamos juntos do instituto, e nos casamos na capela da faculdade o dia que eu me graduei na universidade de Belas artes. Shirley e seu marido foram 
nossas testemunhas. No foi umas grande bodas, mas fomos felizes... ento. Tenho uma fotografia em meu moedeiro.
     -Vi-a. Quantos anos tinha quando lhes casaram?
     -Pois... eu tinha vinte e dois, assim que ele devia ter vinte e oito.
     -Quantos tinha quando morreu? 
     Jessica apartou o olhar. No queria falar do Tom, no queria recordar aqueles anos de novo, mas entendia seu interesse. 
     -Trinta e cinco. 
     -Quando morreu? 
     -Faz dois anos, em Natal. 
     -Ento agora teria... trinta e sete -disse ele, olhando a de uma forma muito estranha-. Que dia era seu aniversrio? 
     -Em dezesseis de junho. 
     Smith, plido, deixou cair a taa sobre o prato.
     
     Captulo Cinco
     
     Era como se lhe tivesse cansado a casa em cima. Como podia ser?
     -O que ocorre? -perguntou Jessica.
     -Em dezesseis de junho  meu aniversrio. E tenho trinta e sete.
     -Mas, ento, Tom e voc seriam...
     -Gmeos -disse Smith, com os lbios apertados-. Me d a data exata do acidente e da morte do Tom.
     Sabia que Jessica teria perguntas que fazer, mas no estava preparado para falar. Antes tinha que digerir todo aquilo. E comprovar os dados. Smith Rutledge 
no era nenhum parvo.
     Entretanto, enquanto se dirigia ao ordenador, sabia... sabia. Tinha sabido sempre que parte de sua vida estava perdida.
     No demorou muito em verificar que Thomas Edward Smith morreu no Oklahoma. depois de um par de chamadas, recebeu um correio eletrnico com o bilhete que apareceu 
no peridico do Bartlesville, no que nomeavam a sua viva, Jessica Ou'Connor Smith, e a sua av Lula Jane Smith. Um tal Mack Milhares tinha sido o portador do fretro.
     Um artigo publicado sobre o acidente mostrava uma motocicleta destroada e mencionava que Thomas Smith voltava de uma festa em casa de seus amigos. E o muito 
imprudente no levava casco.
     Smith, com a cabea entre as mos, lanou uma maldio. Ele tambm teve um acidente de moto... quando Kyle se casou. Um condutor bbado o jogou da estrada, 
mas ele levava casco. No lhe aconteceu nada, mas Tom se quebrado o pescoo e o levaram a um hospital da Tulsa em estado muito grave.
     Durante vrios minutos, Smith ficou olhando pela janela, observando como o vento movia os ramos das rvores. Pensava, dava-lhe voltas  informao, tentando 
lhe encontrar sentido.
     Se Tom e ele eram irmos, por que os separaram?
     Amaldioou a seus pais por no lhe dizer a verdade. Se o tivesse sabido dez anos antes... se o houvessem dito uns dias antes do acidente, Tom poderia estar 
vivo. E sua vida teria sido diferente.
     Por fim voltou para a tela do ordenador e procurou outro artigo no peridico do Bartlesville: o anncio das bodas do Tom e Jessica. Nele mencionavam que ela 
tinha ganho o prmio de professora do ano.
     O ltimo artigo foi publicado dois anos antes: os professores do instituto tinham organizado uma tmbola com objeto de arrecadar dinheiro para pagar os gastos 
mdicos do Tom.
     Uma tmbola? Por Deus bendito. Quando ele poderia ter pago todas as faturas... Smith se levantou e saiu do estudo.
     
     Se Jessica estava surpreendida, podia imaginar o que sentia Smith.
     Tivesse desejado consol-lo, falar com ele, mas se se parecia com o Tom, no agradeceria esse gesto. Possivelmente era um rasgo tipicamente masculino, mas seu 
marido nunca falava das coisas que o preocupavam. Deixava-a fora. Saa da casa e bebia para esquecer. Bebia muito. Por isso o deixou.
     
     Se Smith tivesse sido um homem dado  bebida se teria embebedado. Em lugar disso, selou a Rio e cavalgou durante toda a manh. Depois subiu ao ginsio que tinha 
instalado em cima da garagem e esteve levantando pesos at que no pde mais.
     Com a cabea a ponto de explorar, baixou  piscina e, depois de despir-se, atirou-se  gua de cabea.
     
     Jessica, detrs da cortina, observava-o nadar. Levava vinte compridos e no parecia ter vontades de deix-lo.
     Tinha estado a ponto de sair a tomar o sol quando o viu tir-los calas e lanar-se  gua. Como professora de desenho, licenciada em arte e mulher casada, 
o corpo nu de um homem no lhe resultava nada estranho, mas Smith no era qualquer homem. Tinha o corpo de um atleta grego.
     Duro, musculoso, magnfico.
     Deveria haver-se dado a volta, mas no o fez. Hipnotizada pelo corpo bronzeado, ficou olhando enquanto se despia e se atirava  gua. O no a tinha visto, de 
modo que deu um passo atrs e ficou mdio escondida pela cortina.
     Embora tinham um corpo parecido, havia uma grande diferencia entre o corpo do Smith e o do Tom. Jessica no recordava sentir-se to... excitada pelo corpo de 
seu marido, nem sequer durante os primeiros meses do matrimnio. V-lo nu lhe produzia uma queimao no ventre... Esse pensamento fez que ficasse tinta. estava-se 
excitando sozinho olhando-o.
     Sentindo-se como uma olheira, saiu da habitao. As coisas eram muito complicadas e, quanto antes se fora daquela casa, melhor.
     Tinha coisas urgentes que fazer no Matamoros.
     
     Jessica no voltou a ver o Smith at o dia seguinte, na piscina. Embora foi amvel com ela, logo que disse uma palavra enquanto tomavam o caf da manh.
     Cada vez que o olhava, recordava seu corpo nu; de modo que tentava no olh-lo.
     Mas isso no a ajudou nada. No tinha estado toda a noite obcecada com ele?
     Aquilo era ridculo. Solo devia lhe anunciar que tinha trabalho e partir dali.
     Mas no podia faz-lo. Em lugar disso, comia sua omelete francesa sem dizer nada.
     Quando terminaram de tomar o caf da manh, Smith serve caf para os dois.
     -verifiquei...
     -Parto-me -disse Jessica ao mesmo tempo.
     -Perdoa. Segue.
     por que estava to nervosa? Ela nunca tinha tido nenhum problema para expressar-se.
     -ia dizer que, embora agradea tudo o que tem feito por mim, tenho muito trabalho e devo ir hoje mesmo. Tenho que...
     -No -interrompeu-a Smith.
     -Tenho que ir. Tenho que ir ao Matamoros imediatamente.  muito importante que me entreviu com uma mulher que vive ali.
     -No pode conduzir.
     -Posso contratar a um condutor. Ontem fiz um par de chamadas Y...
     -por que  to importante que fale com essa mulher?
     - a senhora Lpez, uma mulher que estava acostumado a trabalhar na tapearia do Mack. Ela  a que amurada as lentejoulas nas bolsas e faz um trabalho muito 
delicado. Preciso lhe encarregar vrios mais. O problema  que se trocou de casa e no eis podido me pr em contato com ela nem por telefone nem por correio eletrnico. 
Estou segura de que algum de seus vizinhos no Matamoros poder me dizer onde est.
     -Se tiver que ir, eu te levarei. Matamoros  uma cidade grande e nada segura para uma mulher sozinha.
     -Mas suponho que ter coisas mais importantes que fazer que me levar ali.
     -No tenho nada que fazer. Quando vamos?
     Jessica olhou seu relgio.
     -Maldita seja!
     -Algum problema?
     -Me parou o relgio.
     -Necessita uma pilha nova?
     -Provavelmente, mas uma pilha custaria quo mesmo um relgio novo. Terei que comprar outro.
     -Pode faz-lo na fronteira com o Mxico. Estar lista em uma hora? Suspirando, ela aceitou. -Posso estar lista em quinze minutos.
     
     Falaram sobre o Tom durante a viagem at a fronteira. Smith queria conhecer todos os detalhes de sua vida.
     -Seus pais no lhe disseram que tinha um irmo gmeo? Pergunto-me por que no lhes adotaram aos dois.
     Jessica viu que Smith apertava o volante com fora.
     -No me disseram nada. Nem sequer sabia que tinha sido adotado at faz trs anos. E minha famlia segue sem admitir que Sarah Rutledge no  minha me.
     -Por Deus bendito! Que horror. Como averiguou que ela no era sua me natural?
     Smith lhe contou a histria.
     -Mas nem sequer, tendo provas irrefutveis, quiseram me dizer a verdade.
     -Seus pais lhe maltrataram?
     -No, Por Deus. Foram uns pais maravilhosos. Nunca duvidei de que me queriam tanto como ao Kyle, e nos criaram sem fazer diferena alguma. Tive uma infncia 
maravilhosa... tudo o que um menino tivesse podido desejar.
     -Pois ento lhe d graas a seus pais, Smith. Asseguro-lhe isso,  terrvel para um menino criar-se em uma casa em que no recebe amor. Tom e eu lhe teramos 
trocado o stio sem duvid-lo. Pela razo que seja, seus pais querem manter em segredo que  adotado, mas isso j  histria. Esquece-o. Como meu adotivo me disse 
uma vez: "olhar atrs muito solo te dar dor de pescoo".
     -Sonha como meu av Pete... sempre tem um dito para cada ocasio.
     Jessica ia replicar, mas o pensou melhor. Smith tinha uma ferida no corao, estava claro. E demoraria tempo em curar.
     Viajaram em silencio durante vrios quilmetros. Evidentemente, estava ressentido com seus pais, mas no podia dizer nada que o fizesse sentir melhor. por que 
os homens eram to teimosos?
     Logo chegaram ao Brownsville e cruzaram a ponte sobre Rio Grande para chegar ao Mxico. Embora Brownsville e Matamoros estavam pegas a uma  outra, evidentemente 
tinham chegado a outro pas. alm de que os psteres estavam em espanhol, a cidade tinha um ar completamente diferente.
     E como no sabia onde ia, Jessica se alegrou de que Smith a tivesse acompanhado.
     Conforme deixavam as ruas principais, as casas se faziam mais velhas at converter-se em barraces com teto de uralita.
     -A gente vem aqui do interior do Mxico, onde as condies de vida so ainda mais precrias e constrem uma casa materiais que encontram. Se viverem aqui durante 
cinco anos, a parcela passa a ser propriedade dela. 
     Smith parou diante de uma loja onde havia vrios homens congregados e perguntou como chegar  direo que Jessica tinha cotada em um papel.
     -Est na seguinte ma. 
     -Ah, que sorte tivemos -sorriu ela. 
     Mas a senhora Lpez j no vivia ali. Seu filho se mudou a outra cidade e ela estava vivendo com sua filha em outra zona do Matamoros. Quando por fim a localizaram, 
a mulher se alegrou muitssimo de que Jessica queria contrat-la. Pelas condies de sua casa, era evidente que logo que ganhava o suficiente para viver. Com o Smith 
como intrprete, chegaram a um acordo econmico pelos bordados. Jessica lhe deixou as caixas de material e tambm um adiantamento pelo trabalho, ficando de acordo 
em como e quando lhe faria saber que o produto estava terminado.
     Quando se afastavam da casa, ela deixou escapar um suspiro.
     -me recorde que no volte a me queixar pelo que ganho. Como sobrevive esta gente?
     -Passam-no mau -disse Smith-. O dinheiro que a senhora Lpez ganhe com os bordados servir para toda a famlia. 
     Jessica se mordeu os lbios. 
     -O preo que lembramos me parece barato. Possivelmente deveria lhe haver devotado mais.
     -No, tem-lhe feito uma boa oferta. Em realidade, quase o triplo do que ganham aqui como salrio mnimo. 
     -Incrvel.
     Seguiram conduzindo at uma zona de aspecto prspero e, pouco depois, Smith estacionou frente a uma joalheria.
     -Podemos comprar aqui o relgio. Quando entraram, o proprietrio se mostrou encantado de atend-los. Mas depois de olhar uns quantos relgios, Jessica lhe disse 
ao ouvido:
     -Parece-me que isto  muito caro para mim. So relgios de marca.
     -Tambm tm boas imitaes. No te dar conta at que ponha a boneca verde -riu Smith.
     Depois falou com o proprietrio da joalheria e o homem entrou na trastienda.
     -O que lhe h dito?
     -Que queria ver algumas imitaes bem feitas.
     O homem voltou pouco depois com uma bandeja de deliciosos relgios femininos. Eram to bonitos, que parecia impossvel que fossem falsos.
     -So divinos.
     -Pode escolher o que queira por vinte dlares.
     Com ajuda do Smith, Jessica se provou uma dzia.
     -No sei se comprar o Rolex ou o Piaget. Voc o que crie?
     -por que no compra os dois?
     -Porque essa  uma extravagncia que no posso me permitir. Levo-me o da correia de metal. Assim me poderei pr isso em cima do estuque.
     Smith tentou lhe dar de presente o relgio, mas ela insistiu em pagar com seu carto de crdito. Enquanto Smith e o proprietrio concluam o trato em espanhol, 
Jessica olhou uns preciosos pendentes de diamantes. J no tinha jias... enfim, nunca tinha tido grande coisa. Mas j nem sequer tinha  a aliana ou o anel de compromisso 
porque  teve que vend-los.
     Comeram em um bonito restaurante e depois passearam um momento pelo mercado antes de voltar para carro.
     -Obrigado por vir comigo. Se tivesse vindo sozinha, me teria perdido.
     -Me alegro de ter ajudado.
     Jessica levantou a mo para admirar seu novo relgio.
     -A verdade  que enganaria a qualquer.
     -Deveria ter comprado tambm o outro.
     -O que diz? Voc no sabe nada de oramentos apertados, mas eu sim. No posso comprar dois relgios... embora valham vinte dlares. Por isso tenho que voltar 
a trabalhar.
     -Tem que descansar at que sua boneca esteja curada de tudo. E at que tenha controlado a anemia.
     - que no entende que no posso deixar de trabalhar? -espetou-lhe ela ento, irritada-. Estou at o pescoo de...
     No terminou a frase. Suas dvidas eram coisa dela.
     -At o pescoo do que?
     -De nada.
     -De dvidas?
     -Olhe, no estou me queixando. Simplesmente tenho obrigaes.
     -Que classe de obrigaes?
     Jessica no queria lhe falar sobre as faturas do Tom; mas ele insistiu tanto, que ao final o soltou.
     -Meu seguro mdico cobria parte dos gastos, mas no todos. Essa  uma das razes pelas que decidi abrir um negcio. Creio em meu produto e sei que, se trabalho 
muito e mantenho um pressuposto apertado, posso ganhar o suficiente para pagar todas essas faturas em dois anos.
     -Dois anos?
     -Com meu salrio de professora no teria terminado nunca. Dei-me um ano de prazo para pr no mercado as bolsas de bandoleira, assim, como v,  muito importante 
que me atenga a uma agenda. E a feira de Dallas  fundamental para isso.
     -Deixa que te ajude -disse ele ento.
     -No estou procurando caridade, muito obrigado.
     Smith deteve o carro no borda e se voltou para ela.
     -Olhe, sei que Tom era meu irmo e, para mim,  terrvel no hav-lo conhecido. Tenho mais dinheiro de que poderia me gastar nunca... por favor, deixa que te 
ajude a pagar essas faturas. Significa muito para mim.
     Jessica estudou sua expresso. No havia dvida de sua sinceridade. Era muito importante para ele, e deixar que lhe tirasse aquela terrvel carrega econmica 
de cima seria a soluo para todos seus problemas.
     Mas ela sempre tinha sido uma pessoa que se dava a outros, no estava acostumada a receber. Independente, auto-suficiente. Mel, seu adotivo, havia-lhe dito 
milhares de vezes que devia aprender a no ser to orgulhosa e a deixar que outros fizessem coisas por quando lhe fizesse falta.
     Quase podia ouvir a voz do Mel lhe sussurrando ao ouvido: "lhe d uma oportunidade a algum que precisa dar".
     -Muito bem -disse por fim-. Obrigado. 
     -Estupendo. E agora que isso est solucionado, pode descansar tranqilamente.
     -No de tudo. Aceito que pague as faturas mdicas do Tom, mas sigo tendo que dirigir um negcio. E sigo tendo problemas econmicos. Necessito as vendas do Corpus 
Christi e Houston para financiar as amostras de Dallas. E certamente terei que contratar... 
     Smith levantou os olhos ao cu. 
     -Por favor, olhe que  cabea! 
     -Eu sou cabea?
     -Como uma mula. Aceita que eu sei um par de coisas sobre negcios? 
     -Sim, claro.
     -Um princpio importante nos negcios  estabelecer contatos e us-los para sair adiante.
     -Sei. Por isso visito as boutiques que me interessam e vou s feiras.
     -E no me cabe dvida que o faz muito bem, mas certamente eu sou o melhor contato que possa ter. Deixa que te ajude. 
     -Como? 
     -Quantos bolsas pensava vender no Corpus Christi? -perguntou Smith.
     -Setenta e cinco, com um pouco de sorte. 
     -Eu comprarei cem e assim no ter que ir. 
     -E o que vais fazer com cem bolsas?
     -os dar de presente em Natal a minhas empregadas.
     -Mas se estivermos em fevereiro...
     -Eu gosto de comprar logo para evitar as aglomeraes.
     Ela o olhou, atnita.
     -No o dir a srio, verdade? Alm disso, essa feira no  a nica razo pela que quero ir ao Corpus Christi. Tenho que ir s boutiques para mostrar minha nova 
linha de bolsas de festa.
     -Que tal se fizer uma chamada e apresento ao Sandi?
     -Quem  Sandi?
     -A mulher do Brandon Myers, um de meus companheiros de universidade -sorriu Smith-.  a relaes pblicas e encarregada s compras no Neimann Marcus.
     -Neimann Marcus, as lojas de departamentos mais importantes do pas? -exclamou Jessica.
     -Os mesmos.
     
     Captulo Seis
     
     Jessica no podia dormir. Estava muito emocionada. As lojas de departamentos Neimann Marcus...
     Smith chamou o Sandi Myers assim que chegaram a casa.
     -Quer que lhe envie diapositivas de suas bolsas -havia-lhe dito Smith depois-. Tem diapositivas?
     -No -respondeu ela, angustiada-. Deveramos as haver feito, mas no me ocorreu. O que posso fazer?
     Smith chamou o fotgrafo de sua empresa e, ao dia seguinte tinham umas preciosas diapositivas de suas bolsas, que enviaram ao Sandi por mensageiro urgente.
     depois de trs dias de mord-las unhas, Jessica recebeu uma chamada: ao Sandi tinham gostado de muito e queria ver as bolsas pessoalmente. Ela aceitou,  obvio. 
Embora tivesse que ir a Dallas andando. Mas no o disse em voz alta. comportou-se de uma forma muito profissional e s gritou depois de pendurar o telefone.
     Tinha uma entrevista com a relaes pblicas e encarregada em compras do Neimann Marcus na segunda-feira.
     Nem em seus mais loucos sonhos teria imaginado que aquilo poderia passar. Suas bolsas nas melhores cristaleiras do pas... era muito.
     No sabia se poderia agentar a incerteza cinco dias mais. Devia chamar o Shirley para lhe dar a notcia? Mas, e se ao Sandi Myers no gostava das bolsas ao 
ver os de perto? E sim estava sonhando acordada? E se estava fazendo-se muitas iluses?
     Jessica dava voltas e voltas na cama sem poder dormir e, por fim, decidiu levantar-se. Possivelmente um copo de leite a ajudaria. E uma bolacha. Ou dois. Ou 
trs.
     Rosa tinha feito bolachas de chocolate, seus favoritas.
     Pensou em fic-la bata, mas decidiu no faz-lo. Eram as trs da manh, de modo que todo mundo estaria dormindo. Entraria na cozinha, serviria-se um copo de 
leite e um prato de bolachas, e voltaria para a habitao.
     Mas voltar com a bandeja era um problema por causa do estuque, assim que se serve o copo de leite e guardou as bolachas em uma toalha de papel a modo de bolsa 
para poder lev-la entre os dentes.
     Apagou a luz da cozinha com o cotovelo e voltou a percorrer o corredor, tentando no fazer rudo.
     Mas, de repente, encontrou-se com um obstculo. Sobressaltada, deixou escapar um grito e as bolachas e o copo de leite caram com estrpito ao cho.
     -Mas, o que...?
     Smith acendeu a luz. Solo levava uns jeans mdio desabotoados.
     O copo se quebrado em mil pedaos e havia leite por todo o cho. As bolachas estavam nadando em meio da branca piscina.
     Jessica se sentia como uma idiota... ou mas bem como uma menina a que tivessem pilhado fazendo uma travessura.
     E o olhar do Smith a fez sentir ainda pior.
     Seu torso nu estava empapado de leite e, sem pensar, tocou a branca catarata com a ponta do dedo... mas quando roou seu umbigo se deu conta do que estava fazendo 
e apartou a mo, mortificada.
     Durante vrios segundos ficaram em completo silncio. Nenhum dos dois se atrevia a respirar. Parecia haver uma estranha tenso no ar.
     -Sinto muito -disse ela por fim, rendo nervosamente-. No estou acostumado a ter problemas para sujeitar a comida sempre que voc anda por a. No se preocupe, 
eu o limparei...
     -No! No te mova. Vai descala e poderia te cortar com os cristais. Levarei-te em braos.
     -Mas voc tambm vai descalo...
     -Espera um momento.
     Smith deu a volta e entrou em sua habitao.
     Jessica, sentindo-se como uma boba, tentou sair daquela armadilha de cristais quebrados, mas o pensou melhor. E ento viu que tinha a camisola empapada e o 
tecido se pegava a seu peito como se fora papel de seda. Era lgico que Smith se houvesse posto plido.
     Nervosa, atirou da parte mais molhada para tentar sec-lo mas,  obvio, era intil.
     Smith voltou em seguida. ps-se uns mocasines e, sem dizer uma palavra, tomou em braos para lev-la ao quarto de banho.
     -Est empapada.
     -me diga algo que no saiba. Oua, sinto muito o do copo.
     -te esquea do copo. Cortaste-te? Tem-te feito mal na mo?
     -No, estou bem. E o estuque tambm. Mas quero me lavar um pouco.
     Esperava que ele se fora. Mas no foi assim. Em lugar de faz-lo, abriu o grifo e tomou uma toalha.
     -O que faz?
     -vou limpar te um pouco a camisola. No pode faz-lo sozinha. V-o? Kathy deveria haver ficado uns dias mais.
     -No necessito uma enfermeira -replicou Jessica-.  um gasto absurdo. Alm disso, posso me lavar sozinha -disse ento, cobrindo-se com a toalha.
     Smith sorriu.
     - muito tarde.
     -Para que  muito tarde?
     -Para a toalha.
     Jessica fechou os olhos, desejando que a tragasse a terra.
     -No seja cabea. Deixa que te ajude.
     -No. E esta vez no penso negociar.
     Por fim, sacudindo a cabea, ele saiu do banho.
     Demorou meia hora em tomar banho e trocar-se de camisola... e quando terminou, estava esgotada. Certamente depois daquilo poderia dormir, disse-se.
     Quando entrou em sua habitao, viu um copo de leite e um prato de bolachas sobre a mesinha.
     E seus olhos se encheram de lgrimas.
     - um cu -murmurou.
     
     Se antes estava inquieto, naquele momento era como um tigre enjaulado.
     A imagem da Jessica com aquela camisola molhada lhe queimava no crebro. Por Deus bendito, desejava  viva de seu irmo. No estava bem. sentia-se como um 
porco.
     E mais ardente que o demnio.
     Tinha pensado muito na Jessica durante os ltimos dias... e no devia pensar. At recordava seu aroma, sua risada, cada rasgo de seu rosto...
     Desejava tocar seus peitos, lhe acariciar os quadris, abrir suas pernas. No podia recordar quando uma mulher o tinha obcecado tanto como ela.
     Estar com a Jessica o deixava esgotado, e v-la com aquela camisola s tinha acrescentado combustvel ao fogo que o queimava por dentro.
     "Te acalme", disse-se a si mesmo. "Ela no est a seu alcance".
     Smith foi  piscina e se atirou de cabea.
     Mas, por muito que nadasse, no podia deixar de pensar nela. T-la perto estava criando um srio problema, mas no podia jog-la porque necessitava sua ajuda. 
O devia ao irmo ao que nunca conheceu.
     Conseguiria guard-las mos para si mesmo e seus pensamentos tambm, disse-se.
     Como fora.
     
     Quando chegou na segunda-feira, Jessica estava dos nervos.
     Rosa a ajudou a ficar seu melhor traje de jaqueta, um traje de desenho da temporada anterior que comprou na Tulsa. Mas a manga no entrava por culpa do estuque.
     Estava a ponto de ficar a chorar quando Smith a convenceu para que, simplesmente, ficasse a jaqueta por cima dos ombros.
     Saam de casa quando gritou: "Espera!" e saiu correndo a sua habitao. A toda pressa tomou um dos frasquitos de perfume, e voltou de novo para a porta.
     -Quer me abrir isto?
     Smith abriu o frasquito e esperou enquanto ela ficava um pouco de perfume no decote.
     -Cheira bem.
     - meu favorito. Guardava-o para uma ocasio especial.
     -por que no compra um frasco grande? 
     -Porque costa uma dinheirama. Isto  uma amostra gratuita.
     -Ah, j vejo. Est muito bonita com esse traje.
     - da temporada anterior. Se compras um traje de desenho quando sai ao mercado, custa-te um olho da cara.
     -Pois est muito bem.
     -Obrigado -sorriu Jessica-. Crie que Sandi notar que meu relgio  uma imitao?
     -Duvido-o.  uma imitao muito bom.
     Smith abriu o porta-malas do carro e guardou uma mala com rodas em que Jessica levava uma amostra de cada bolsa.
     Fizeram a viagem em um avio privado, certamente da empresa Smith, S.A, embora Jessica no perguntou. Chegaram ao aeroporto do Love Field, em Dallas, com tempo 
suficiente para que o chofer os levasse a edifcio do Neimann Marcus.
     "Assim se pode viajar", pensava Jessica, olhando pelo guich do Mercedes negro. "Mas no acostume a estes luxos", advertiu-se a si mesmo. Logo teria que voltar 
para sua caravana.
     Smith quis acompanh-la at o escritrio do Sandi, mas quando foram entrar no elevador, ela o deteve.
     -Agradeo muito sua ajuda, de verdade. Mas tenho que faz-lo sozinha.
     Esperava que discutisse, mas se limitou a sorrir.
     -Entendo. Irei s compras ento. Encontraremo-nos aqui em... uma hora. Parece-te?
     Assentindo, Jessica entrou no elevador e pulsou o boto da novena planta.
     Muitas coisas dependiam daquela reunio.
     
     Uma hora mais tarde, Jessica descia no mesmo elevador.
     Smith a estava esperando com uma bolsa na mo.
     -Que tal foi?
     -Vamos daqui. Agora lhe o conto. 
     Uma vez de volta no Mercedes, ela deixou escapar um grito de alegria. 
     -Yupi!
     -Vejo que foi tudo bem -riu Smith. 
     -Encantaram-lhe minhas bolsas! -exclamou Jessica, lhe plantando um beijo-. Diz que so divinos. E pediu cem para comear. Cem! Para comear. No  incrvel? 
E me falou que os natais, de catlogos, de possibilidades em Internet... Shirley no vai acreditar se o Por favor, nem eu mesma me acredito. Tenho que cham-la agora 
mesmo -disse ento, abrindo a maleta para tirar o mvel.
     -Que tal se comermos juntos para celebr-lo?
     - obvio.
     Smith a levou a um luxuoso restaurante no Turtle Creek e comeram algo divino, embora Jessica apenas se inteirou. Estava flutuando.
     -Quando tem que enviar o pedido?
     -Prometi-lhe as primeiras cinqenta bolsas imediatamente. A segunda metade dentro de um ms.
     -Tem cinqenta j feitos?
     -Ai, Meu deus, no sei! Sim... no. No me lembro... E se no os tenho? No estou segura -exclamou, olhando seu estuque com expresso de pnico-. O que vou 
fazer? No posso trabalhar com isto.
     Ele apertou sua mo, rendo.
     -No se preocupe, carinho. Faz o que faz o presidente de uma empresa... delegar.
     Jessica sorriu.
     -Sabe costurar?
     Smith soltou uma gargalhada.
     -No, srio.
     -Em quem vou delegar? E a senhora Lpez... terminar o encargo a tempo?
     -com certeza que sim. E encontrar costureiras que faam as bolsas no te resultar difcil. Quer uma sobremesa?
     -Certamente. Um pouco muito pecaminoso, com muitssimo chocolate -sorriu ela, passando-a lngua pelos lbios.
     Havia-o dito em brincadeira, mas a lhe sugiram olhar do Smith fez que lhe tremessem as mos.
     Estava tonteando com ela? Possivelmente no deveria hav-lo beijado no carro. No tinha querido faz-lo. Foi algo completamente espontneo, parte da emoo 
do momento. E devia deix-lo bem claro. Uma relao entre eles estava fora da questo.
     Ou no?
     Smith Rutledge era um homem muito sexy. E era absurdo negar a verdade. No tinha passado horas fantasiando sobre seu umbigo? E seus msculos. E suas mos. E 
sua boca.
     Curioso, quando o olhava j no via o Tom. Solo via A... Smith, um homem nico e extraordinrio. Embora se pareciam muito, eram duas pessoas diferentes. Completamente 
diferentes.
     Possivelmente...
     Enfim, poderia deixar suas opes abertas.
     
     Enquanto voltavam para aeroporto depois de comer, Jessica ia admirando as zonas residenciais pelas que aconteciam: as arvoredos, advinda-las flanqueadas por 
castanhos e carvalhos.
     -Esta parte de Dallas  preciosa.
     -Eu cresci perto daqui.
     -Ah, sim? Seus pais vivem nesta zona?
     -Sim. vamos falar dos empregados que necessita...
     -No quer que paremos para lhes fazer uma visita j que estamos aqui? No me importa.
     -Duvido que estejam em casa.
     -Poderamos chamar por telefone.
     -Em outro momento -disse Smith que, evidentemente, no queria seguir falando do tema.
     -Quando foste visitar os por ltima vez?
     -Faz tempo. Eu creio que h vrias frmulas para contratar pessoal. Poderia fazer as bolsas no Mxico e isso reduziria custos, mas que fizessem o trabalho ao 
outro lado da fronteira requer que vivas ali durante um tempo ou que v cada dia at que tenha treinado a um supervisor. Alm disso, est o problema do idioma. E 
o problema do tempo.
     -No quero viver no Mxico. No falo o idioma, e ir cada dia seria um horror. Alm disso, quanto tempo seria "algum tempo"?
     -Trs anos como mnimo. Outra opo seria te instalar no Harlingen e contratar gente dali. Seguro que Rosa poderia nos ajudar. Creio que sua irm  costureira.
     -Isso eu gosto mais... No me diga que no viu a seus pais em trs anos? -exclamou Jessica ento. -No.
     ia dizer algo, mas a expresso do Smith era to sria, que deixou o tema e seguiram falando do trabalho e do pessoal que devia contratar at que chegaram ao 
aeroporto.
     Era sua imaginao ou ele estava encantado de ajud-la com seu negcio? Isso seria absurdo. depois de tudo, Smith era o presidente de uma empresa gigantesca, 
por no falar da plantao de ctricos. por que ia importar lhe uma empresa to pequena como a sua?
     Possivelmente pelo Tom. Porque, como sua viva, acreditava- uma responsabilidade familiar. Ou possivelmente lhe parecia uma nova provocao. Fosse qual fosse 
a razo, sentia-se enormemente agradecida.
     -No te dei as obrigado por me ajudar -disse quando subiram ao avio-. O que aconteceu hoje vai alm de minhas expectativas. E nada disto teria sido possvel 
sem ti. Obrigado, Smith.
     -De nada -sorriu ele, lhe piscando os olhos um olho.
     Quando estavam no ar, Jessica voltou a fixar-se na bolsa do Neimann Marcus.
     -O que compraste?
     -Um presente -respondeu Smith.
     -Para quem?
     -Para ti.
     -por que me compraste um presente?
     -Para te dar o parabns.
     -E se no tivesse vendido as bolsas?
     -Ento poderamos consider-lo um prmio de consolao.
     Jessica no recordava a ltima vez que algum lhe fez um presente e o detalhe a emocionou.
     -No pensa abri-lo?
     -Sim, claro.
     Sorrindo, rasgou o papel. Era um frasco de seu perfume favorito. Um frasco enorme.
     E ento, sem poder evit-lo, abraou ao Smith de novo.
     
     Captulo Sete
     
     Muito agitada para ver a televiso, ler ou dormir, Jessica saiu a terrao a tomar o ar.
     Havia lua enche e sua luz de prata iluminava a plantao.
     Nos dois ltimos dias, as laranjeiras tinham comeado a florescer e sua fragrncia perfumava toda a casa. Jessica respirou profundamente, desfrutando da brisa 
que acariciava sua cara.
     - precioso, verdade?
     Sobressaltada pela voz do Smith, levou-se uma mo ao peito.
     -Que susto me deste!
     Ele apareceu ento entre as sombras da terrao.
     -Perdoa. No queria te assustar. Ia ao ginsio e me detive um momento para cheirar as flores.
     Levava calas curtas, sapatilhas de esporte e uma velha camiseta. Jessica olhou seu umbigo. por que, de todos os umbigos que tinha visto em sua vida, aquele 
exercia tal fascinao nela? No sabia por que, mas se tinha convertido em uma zona ergena. Fantasiava sobre ele freqentemente, desejando toc-lo, colocar a lngua...
     "Por Deus bendito!".
     Nervosa, apartou o olhar.
     -Cheira de maravilha. E esta noite parece cheirar mais do normal.
     -Sim,  verdade. Quer ir dar um passeio entre as rvores?
     -No pensava fazer um pouco de exerccio?
     -No tenho pressa -sorriu Smith, tomando-a pela cintura-. Vamos.
     Passeando entre as rvores, a fragrncia era mais forte, mais doce, e as ptalas das flores brilhavam  luz da lua.
     -Que classe de rvores so estes?
     -Laranjeiras -respondeu ele, cortando uma ramita e colocando-lhe no cabelo-. O que cheira  a flor de flor-de-laranja.
     Jessica conteve a respirao. O roce de suas mos tinha provocado uma imediata resposta ertica.
     No podia mover-se, no podia falar.
     Seguia tocando seu cabelo? Ou o roce de seus dedos tinha deixado um rastro indelvel?
     Seus olhos se encontraram ento. Os do homem brilhavam de desejo.
     Smith inclinou a cabea, Jessica levantou a sua.
     O tempo pareceu ficar suspenso durante o que pareceu um sculo, o ar permeado pelo aroma da flor de flor-de-laranja, embriagando-a, aproximando-os cada vez 
mais at que seus lbios se roaram.
     O primeiro roce foi como uma exploso. Smith a envolveu em seus braos, procurando sua boca como desesperado. Gemendo, ela enredou os sua ao redor da cintura 
masculina. Desejava mover as mos, explorar suas costas...
     Smith suspirou roncamente sobre sua boca; um som to carregado de desejo, que Jessica sentiu calor entre as pernas.
     Ento comeou a beij-la no pescoo. Ela levantou a cara para lhe oferecer sua garganta, apertando-se contra o endurecido membro masculino.
     Smith procurou seus peitos por debaixo da camiseta e Jessica deixou escapar um suspiro de prazer quando sentiu a carcia em seus mamilos; uma carcia que a 
fazia desejar um contato mais ntimo.
     Queria tir-la roupa, queria senti-lo dentro...
     -Que Deus me ajude -murmurou, louca de desejo, tomando o elstico da cala.
     O ficou imvel um momento. E ento deu um passo atrs.
     -Sinto muito... Sinto muito. No queria que isto ocorresse. Tenho-te feito mal?
     -Dano? No, claro que no. por que h...?
     -Sinto muito -repetiu Smith, passando uma mo pelo cabelo-. J sei que coloquei a pata. Poderia esquecer o que passou?
     Aquilo foi como um jarro de gua fria. E se sentia como uma idiota.
     -Sim, claro. Considera-o esquecido -disse, como se no tivesse importncia.
     Com a cabea bem alta, deu-se a volta e virtualmente correu para a casa para no chorar diante dele.
     A magia da noite tinha desaparecido.
     O aroma da flor de flor-de-laranja se converteu em enjoativo e Jessica se encerrou em sua habitao.
     Desgraadamente, no podia escapar da impresso que os lbios do Smith faziam nos seus, nem do rastro que tinham deixado suas mos. O aroma das flores, misturado 
com o do homem, parecia ter ficado impresso em sua roupa.
     Deveria lhe haver perguntado o porqu do brusco rechao, mas se sentia muito humilhada.
     Enquanto se lavava a cara, tentou recordar a cena, mas seguia sem entender o que tinha ocorrido. Algo o fez apartar-se, mas o que?
     Enfim... sobreviveria. Com o orgulho um pouco prejudicado, certamente.
     Possivelmente poderiam ser amigos. Sim, isso seria o melhor. O que outra coisa podiam ser?
     Quando ia meter se na cama, viu que havia uma flor de flor-de-laranja sobre seu travesseiro.
     E, de novo, aquele gesto voltou a confundi-la.
     
     Smith se amaldioou a si mesmo por ser to tolo. O que o havia posedo para beijar a dessa forma? Acreditava que podia controlar-se. Evidentemente, no era 
assim. Tinha estado a ponto de despi-la e tom-la ali mesmo, sob uma rvore.
     Mas sabia que no era a ele a quem Jessica estava vendo, a no ser a seu irmo gmeo. Cada vez que o olhava, via o Tom.
     E no podia suportar a idia de ser o dobro de um homem morto.
     Para escapar do desejo que sentia por ela, tentou passar mais tempo no escritrio; mas ali no tinha muito que fazer e os dias resultavam compridos e aborrecidos.
     Sua antiga paixo pelo trabalho tinha desaparecido e era pior desde que perdeu o contato com sua famlia.
     A relao sentimental que manteve com o Stephanie Bridges foi um fracasso mais por seu desinteresse emocional; suas aventuras, aps, tinham sido breves, impessoais 
e nada satisfatrias.
     Levava muito tempo sem rumo... at que Jessica apareceu e ps seu mundo patas acima. Lhe tinha dado um irmo e uma me natural. Tinha-lhe dado uma identidade 
e um propsito.
     No podia imaginar a vida sem ela. Jessica enchia sua casa, seus sonhos, seus pensamentos. No tinha nenhum interesse por sua prpria empresa, que virtualmente 
funcionava sozinha, mas lhe tinha contagiado sua emoo pelo contrato com as lojas de departamentos Neimann Marcus.
     Jessica o fazia sentir vivo de novo e o fazia... ficar brincalho. Muito brincalho.
     Gotas de suor caam por sua frente enquanto levantava pesos.
     
     As seguintes trs semanas foram muito estranhas. Por um lado, as coisas foram de maravilha. Smith tinha insistido em converter uma das habitaes da casa em 
oficina para suas bolsas. Inclusive se ofereceu voluntrio para ir ao Matamoros a recolher os que tinha feito a senhora Lpez e lhe levar mais material.
     A recontagem na caravana tinha dado como resultado sozinha sessenta e duas bolsas terminadas. Jessica enviou os primeiros cinqenta a Dallas e se concentrou 
em terminar o resto.
     Juanita Torre, a irm de Rosa, era uma excelente costureira e tinha duas companheiras quase to boas como ela. Assim que tudo solucionado. De fato, trabalhando 
sozinho meia jornada, os outros cinqenta estiveram terminados com uma semana de antecipao.
     E Sandi Myers tinha chamado no dia anterior com boas notcias: os primeiros eram um xito e vrias denta tinham pedido desenhos a jogo com seus vestidos de 
noite.
     Shirley lhe disse que havia muitos pedidos atravs da pgina de Internet e Mack tinha a sua equipe trabalhando todo o dia para poder servir os pedidos das boutiques.
     Jessica estava no cu. Queria trabalhar dia e noite, mas Smith no o permitia.
     -Tem que descansar at que o doutor Vargas diga que est recuperada de tudo.
     Ela teria querido discutir, mas o pensou melhor.
     Tinha entrevista com o mdico a semana seguinte. Podia esperar at ento.
     Mas se as coisas foram de maravilha profissionalmente, foram menos que bem no aspecto pessoal. Desde aquela noite na plantao, Smith se comportava de forma 
fria com ela. No era grosseiro,  obvio, solo distante.
     Era amvel, terrvel, escrupulosamente amvel.
     Quase se tinha convencido de que tinha imaginado a paixo daquela noite... mas o tinha visto um par de vezes olhando-a com um desejo impossvel de esconder.
     E logo estava o passeio a cavalo.
     Jessica, inquieta toda a tarde, aproximou-se dos estbulos. Doce, a gua do Smith, converteu-se em seu amiga, certamente porque estava acostumado a lhe levar 
alguma guloseima.
     Aquela vez foi uma ma.
     -A mmicas muito -sorriu ele, aparecendo entre as sombras.
     - um cu. Recorda ao Daisy, minha gua. A sinto falta de.
     -O que foi que ela?
     -Os cavalos foram o primeiro que vendemos depois do acidente do Tom. No podia dar classes, cuidar dele e dos cavalos de uma vez. Alm disso, eram uma carga 
econmica -sorriu Jessica, acariciando o nariz de Doce-. Oxal pudesse mont-la, mas este estuque...
     -Creio que isso pode solucionar-se.
     -De verdade?
     Um minuto depois, Smith tinha selado  gua. Subiu a sua garupa e levantou a Jessica como se fora uma pluma para sent-la frente a ele.
     -Pode nos levar aos dois?
     -Doce  uma gua muito forte.
     Jessica no recordava se tinha desfrutado de do passeio ou no. Nem sequer recordava a rota que tomaram. Solo era consciente da proximidade do Smith, do roce 
de seu brao no flanco enquanto sujeitava as rdeas... e dos batimentos do corao de seu corao. O calor que irradiava era como um forno.
     Ento se precaveu de que seu traseiro estava roando a entrepierna do homem, e tentou apartar-se.
     -No faa isso.
     -Fazer o que? -perguntou ela, aparentando inocncia.
     -te mover.
     -Voc molesta?
     -Incomoda a Doce.
     Estava mentindo e sabia. Seus movimentos no incomodavam  gua. Era Smith o que estava... molesto. A atrao sexual entre eles era inegvel. por que no queria 
admiti-lo?
     
     Possivelmente estava imaginando o interesse do Smith nela, interpretando mal seus olhares; mas aquela noite, durante o jantar, voltou a ocorrer.
     Estavam jantando ao lado da piscina, como faziam freqentemente. Jessica tinha levantado os olhos de sua sopa de frutos do mar e o viu olhando-a como se ela 
fora o segundo prato.
     Quando chegou a sobremesa, estava to nervosa que logo que podia levantar o garfo.
     Mas em lugar de apartar o olhar como estava acostumado a fazer, um fantasia de diabo lhe pediu que o desafiasse. Tinha chegado a hora de ser sinceros sobre 
aquela atrao.
     Estava farta de sonhos erticos e disposta a lev-los a cabo.
     Olhando-o aos olhos, tomou um morango e, com deliberada lentido, passou a lngua pela ponta.
     Uma e outra vez.
     Smith apertou os lbios.
     -Quer um mordisquito?
     -me diga uma coisa -murmurou ele, com voz rouca.
     -Sim?
     -Queria muito ao Tom?
     Jessica se levantou de um salto.
     -Maldito seja, Smith Rutledge -gritou, lhe atirando o morango  cara-. Maldito seja duzentas vezes!
     
     Captulo Oito
     
     Smith nem sequer queria falar da atrao que havia entre eles. Era como uma mula. Trocava de tema cada vez que Jessica tentava falar do assunto.
     A nica vez que falaram disso foi durante um caf da manh, quando ela, frustrada, perguntou-lhe se tinha alguma enfermidade venrea ou era impotente.
     Smith, que quase se engasgou com os cereais, olhou-a como se tivesse duas cabeas. -Claro que no!
     No queria falar sobre seus sentimentos, mas sua obsesso pelo Tom e Ruth Smith era cada dia maior. Interrogava-a incesantemente sobre eles e sua av Lula.
     -Se o mdico disser que pode viajar, eu gostaria que fssemos ver ao Oklahoma. 
     -No entenderia quem . 
     -Possivelmente no, mas  algo que devo fazer. Viria comigo? Juanita pode encarregar-se de tudo enquanto estamos ali, no? 
     -Sim, claro.  de toda confiana. Smith tambm queria examinar os papis do Tom e as coisas de sua famlia que Jessica guardava em casa do Shirley.
     De modo que na tera-feira seguinte, quando a anlise de sangue confirmou que tudo ia bem e lhe tinham tirado o estuque, fizeram planos para ir ao Oklahoma.
     na quarta-feira tomaram o avio privado com destino ao Bartlesville. Ele estava tenso; muito amvel na aparncia, mas srio.
     Jessica tinha decidido simplesmente esperar.
     cedo ou tarde Smith estalaria e ento... ah, ento, "cuidado, menino".
     Quando chegaram ao Oklahoma o cu estava talher de nuvens e, apesar de que levava jaqueta e calas, Jessica estava tremendo ao entrar no carro.
     -Creio que comecei a me acostumar ao clima do Texas. Estou geada.
     Smith acendeu a calefao e colocou a jaqueta sobre suas pernas.
     -Melhor?
     -Obrigado.
     -De nada.
     Tanta amabilidade... Jessica tinha vontades de gritar.
     -Agora voc ter frio.
     -No, eu sou de sangue quente.
     -Pois no me parece isso.
     -Por favor, Jessica, deixa-o. No posso mais.
     Ela sorriu, sedutora.
     -Seguro que no?
     -J est bem! S sou humano.
     -No, eu sou humano. E estou comeando a pensar que voc  um rob.
     -Um rob? Como os do Star Trek? -tentou brincar Smith.
     Ela deixou escapar um suspiro. Era absurdo tirar o tema. Mas, ao menos, tinha reconhecido que sentia algo. Seu instinto masculino comeava a protestar. Melhor. 
Tambm ela o estava passando mau.
     A anci estava poda e bem vestida quando entraram em v-la. Mas vivia em seu prprio mundo, alheia  realidade. Chamava a Jessica indistintamente Ruth e Edwina, 
sua irm maior, morta vinte anos antes. No pareceu reconhecer ao Smith, nem sequer para confundi-lo com o Tom.
     Sabia que estava desiludido, mas foi muito amvel com Lula. Inclusive lhe tinha levado um presente. A anci sorriu ao ver o que era.
     -Bombons de morango. Meus favoritos -exclamou, em um breve momento de lucidez.
     Smith falou com o diretor da residncia e com o mdico de Lula. Estava disposto a lev-la a um hospital especializado em doentes do Alzheimer, mas ambos insistiram 
em que ali estava recebendo muito bons cuidados e que uma mudana poderia resultar fatal a sua idade.
     -Sinto que no tenha podido falar com ela -disse Jessica quando voltavam para hotel-. Sei que est desiludido.
     -Estou-o. Mas me tinha advertido, assim no esperava muito.
     -Como sabia que os bombons de morango eram seus favoritos? me tinha esquecido. 
     -No sabia -sorriu Smith-. Mas os bombons de morango eram os favoritos de minha av Beamon.
     Quando chegaram ao hotel, Jessica comprovou que cada um tinha uma sute... e que estavam muito separadas. Nada de portas conectando uma habitao com outra, 
 obvio.
     -Tenho que chamar por telefone -disse ele quando subiam no elevador-. A que hora ficaste para jantar com o Shirley?
     -s sete. No demoraremos nada em chegar, mas poderamos ir antes se quer lhe jogar uma olhada s caixas. Suponho que j teria voltado do instituto.
     -Estupendo -disse Smith, entrando em sua habitao.
     Ou, mas bem, "escapando" a sua habitao.
     O que pensava, que ia colocar lhe emano diante do botes?
     Jessica soltou uma risinho. Isso no estaria mau. Em lugar de zangar-se por aquele jogo, estava comeando a desfrut-lo. Gostava das provocaes. Tinha aprendido 
a ser forte desde menina. Era teimosa? Certamente. Admitir a derrota era algo que no estava em seu vocabulrio. Por isso ficou com o Tom durante tanto tempo.
     
     Quando chegavam a casa dos Milhares, comeou a chover muito.
     Smith, sempre to previdente, tinha comprado um guarda-chuva na loja do hotel e, ao sair do carro, tiveram que correr para no empapar-se.
     Shirley, uma garota moria de sorriso contagioso, recebeu-os com um par de toalhas. Abraou a Jessica e se voltou para o Smith...
     Seu sorriso desapareceu ento.
     -meu deus -murmurou, perplexa-. Entrem, por favor. Chove muitssimo, verdade? -disse, tentando dissimular sua reao-. Mack chegar em seguida.
     Jessica lhe tinha explicado a relao entre o Smith e Tom por telefone, mas entendia sua surpresa ao ver um homem que tinha morrido dois anos antes.
     -Shirley, apresento ao Smith Rutledge.  incrvel como se parece com o Tom, verdade?
     -Mais que incrvel.
     Smith sorriu.
     -Ao menos no te deprimiste como fez seu amiga. Me alegro de te conhecer, Shirley. Jessica fala de ti e do Mack todo o tempo. E dos meninos.
     -Onde andam, por certo? trouxemos presentes para eles.
     -Vamos, fazendo os deveres. Baixaro em seguida. Querem tomar algo?
     -Um caf -disse ele.
     -Eu tambm.
     Seguiram ao Shirley at a cozinha e conversaram sobre o negcio, enquanto ela colocava uma bandeja no forno.
     Mack chegou quinze minutos mais tarde e, depois da surpresa inicial ao ver o Smith, uniu-se  conversao.
     antes de jantar, Jessica sugeriu que fossem  garagem para olhar nas caixas onde guardava as coisas do Tom. Mas fazia muito frio para ficar a investigar.
     -Podemos vir amanh por elas. Ser melhor que as revise em casa, com tranqilidade.
     -Muito bem. Creio que me gelou o nariz. Segue em seu stio?
     -Vamos, anda. Est tremendo.
     Ricky e Megan, de sete e nove anos, estavam encantados com os jogos de ordenador que Smith lhes tinha levado de presente. Jantaram com os adultos, mas em seguida 
pediram permisso para subir a sua habitao.
     Mack no sabia se devia falar do Tom mas ele o animou. depois de tudo, tinha sido seu melhor amigo.
     Jessica e Shirley limparam a mesa enquanto lhe contava anedotas sobre uma excurso de pesca que tinham feito quando eram crianas.
     Na cozinha, Shirley deixou de limpar os pratos e se voltou, olhando-a com expresso preocupada.
     -Jess, tome cuidado.
     -Com o que?
     -Com o Smith. Ele no  Tom.
     -Sei. parecem-se muitssimo e tm coisas em comum, mas so completamente diferentes. Ao princpio me custava trabalho, mas depois de uns dias comecei a ver 
o de outra forma.  Smith, no um dobro do Tom. E  uma pessoa maravilhosa. Quente, generoso e muito simptico. Alm disso, no bebe.
     -Ao contrrio que Tom.
     -Assim  -suspirou Jessica-. Smith no est lutando contra seus demnios, como ele. No  um homem inseguro nem amargurado, e no lhe faz a vida impossvel 
a ningum com seu mau carter.
     -Em outras palavras,  como se Tom houvesse tornado... convertido em um homem perfeito, no?
     Esse comentrio golpeou a Jessica como uma bofetada.
     -O que quer dizer?
     -S te peo que tome cuidado. No quero que te faa mal. Lembrana quanto amava ao Tom e a agonia que passou para deix-lo. E tambm recordo quo horrvel foi 
aquele ltimo ano para ti. Olhe, Jessica, voc merece ser feliz Y...
     -De verdade, isto no tem nada que ver com o Tom.
     Shirley deixou escapar um suspiro.
     -Perdoa se me coloco onde no me chamam. Mas  que me preocupo com ti, j sabe.
     -E eu gosto que se preocupe, mas no tem por que faz-lo. Sei o que fao, de verdade.
     -At onde chegastes?
     -A que te refere?
     -No te faa a inocente. Esse homem est louco por ti. Poderia v-lo at um cego.
     -Voc crie?
     -Sei.
     -No nos deitamos juntos, se referir a isso -sorriu Jessica-. Mas estou nisso.
     Shirley decidiu deixar o tema e se dedicaram a celebrar os benefcios que estavam conseguindo com as vendas ao Neimann Marcus. Depois falaram sobre outros materiais, 
outros desenhos que Jessica tinha em mente...
     No voltou a pensar naquela conversao at que Smith e ela voltavam para hotel.
     "O velho Tom convertido em um Tom perfeito?".
     Explicaria isso sua atrao por ele? Smith no era perfeito, isso certamente. Ele tambm tinha problemas, mas a preocupao por encontrar a sua verdadeira famlia 
no era nada comparado com a amargura de seu marido. E era teimoso. Isso era algo que os dois irmos tinham em comum. No falavam de seus problemas, os guardavam 
dentro.
     Mas possivelmente isso formava parte do carter masculino. Durante anos lhe tinha pedido ao Tom que fosse a um psiclogo para falar de suas coisas, mas se negava. 
Em lugar disso, foi ela quem foi  consulta.
     O psiclogo lhe disse que as mulheres no tinham problemas para procurar ajuda quando a necessitavam, mas os homens eram outro assunto. Desde a muitos problemas 
de lcool, drogas...
     -Eu gosto de seus amigos -disse Smith, interrompendo seus pensamentos.
     -Obrigado. So boa gente. Sinto que no tenhamos podido abrir as caixas esta noite.
     -No passa nada. Irei amanh cedo e Mack me ajudar s colocar no carro.
     Jessica pensou em uma dzia de coisas que poderia dizer ou fazer para p-lo nervoso. Mas no fez nada.
     -At manh -despediu-se, movendo seductoramente os quadris enquanto entrava em sua habitao.
     Ento jogou uma olhada pela mira. Smith seguia parecido no stio.
     
     Captulo Nove
     
     Jessica e Smith estavam sentados no cho do salo, rodeados de caixas. Levavam duas horas procurando e tinham encontrado um lbum de fotografias.
     -Quem ? -perguntou ele, assinalando a fotografia de uma menina ao lado de um casal.
     -Sou eu com o Mel e Leah Cutter, meus pais adotivos. Devia ter nove anos.
     -No parece muito feliz.
     Jessica soltou uma gargalhada.
     -Era minha terceira casa em um ano e essa foto foi tomada nada mais chegar. Qui-los muito, mas ao princpio pensava que seriam como todos outros. Seus filhos 
eram maiores e creio que sentiam falta de ter meninos ao redor. Converti-me em uma combinao de filha e neta para eles.
     Enquanto passava as pginas do lbum, Jessica assinalou outras fotografias nas que parecia mais feliz.
     -Estes foram meus primeiros natais com eles... e esta minha primeira bicicleta.
     Tambm havia fotografias das frias no Grande Canho e na Disneylandia.
     -Vivem ainda?
     -Leah morreu quando eu tinha dezoito anos, mas Mel est muito bem. mudou-se a Florida para viver com seu filho maior quando Tom e eu nos casamos. Faz dois anos 
que no nos vemos, mas falamos por telefone muito freqentemente.  um personagem -sorriu Jessica-. Jogo muito de menos. J Leah. 
     -E seus pais naturais? 
     -No os sinto falta de absolutamente. Meu pai nos deixou quando eu era uma menina, e minha me teve uma coleo de noivos e maridos aps -suspirou ela-. Gostava 
mais dos homens e o lcool que eu, e o melhor que pde acontecer foi que lhe tirassem a custdia. 
     - terrvel.
     -Sim, sei. Como te disse, Tom e eu tnhamos muito em comum. Suponho que meu prprio desejo de esquecer a minha me foi o que me fez no pression-lo para que 
falasse da Ruth.
     Em outras fotografias, Jessica aparecia com o uniforme do colgio, sorridente e preciosa. 
     -Foi animadora.
     -Sim, durante quatro anos. E aqui estamos Tom e eu vestidos para a festa de graduao. Tom odiava esse smoking.
     Smith observou a imagem de seu irmo gmeo.
     -Parece que est de mau humor.
     Olharam em outra caixa com as coisas de Lula e encontraram a fotografia emoldurada de uma jovem de corto comprido e olhos tristes.
     - Ruth, a me do Tom. Creio que foi tomada quando tinha dezesseis ou dezessete anos.
     Smith estudou a fotografia durante comprido momento, a fotografia de sua me. sentia-se curiosamente vazio. Seu rosto no lhe resultava mais familiar que o 
de qualquer estranho.
     dentro da caixa havia outra de cetim vermelho em forma de corao. Em seu interior, mais fotografa e um monto de envelopes atados com um lao. As fotografias 
eram de Lula e Malcolm Smith, as cartas do Malcolm a sua mulher. Quando descobriu o que eram, Smith voltou s guardar.
     Encontraram velhas fotografias da Ruth, com o caderno de notas do colgio e um par de medalhas.
     -Era uma boa estudante -disse Jessica-. Especialmente sobressaa em matemtica.
     -Aqui h um diploma da universidade do Oklahoma.
     -No sabia que tivesse ido  universidade.
     -Parece que o deixou em primeiro.
     -Quando foi, no princpio dos sessenta? Possivelmente foi ento quando conheceu esses hippies dos que fala Lula.
     -Provavelmente.
     No fundo da caixa, Smith encontrou uma gasta Bblia. Entre suas pginas, a partida de nascimento e o certificado de falecimento de vrios parentes, comeando 
por uma tal Naomi Ruth Phillips, nascida em 5 de maio de 1899 e casada em 21 de julho de 1916 com o Samuel Elijah Thomas, nascido em 16 de dezembro de 1894.
     -Estes deviam ser os bisavs do Tom. E meus, suponho -suspirou, sentindo que por fim estava comeando a encaixar as peas do quebra-cabeas-. Naomi e Samuel 
tiveram trs filhos: Edwina, Lula Jane e Frank Warren Thomas. Frank morreu em 7 de dezembro de 1941.
     -Ao princpio da Segunda guerra mundial -apontou Jessica.
     -Provavelmente no Pearl Harbour. Solo tinha dezenove anos. E aqui diz que o marido de Lula, Malcolm, morreu em junho de 1944. Meu av. Pergunto-me se tambm 
ele morreu na guerra.
     Lula e Malcolm tinham tido dois filhos: um que morreu ao nascer, em agosto de 1941 e Ruth Anne Smith, nascida em 8 de fevereiro de 1943. O certificado de matrimnio 
da Edwina com o James T. Patrick tambm estava ali, junto com a partida de nascimento de suas trs filhas. 
     -O que aconteceu Edwina? 
     -foi se viver a Califrnia Y... creio recordar que morreu faz uns anos. Ah, sim, Tom foi a seu funeral em trem. No sei nada de suas filhas.
     Smith seguiu procurando e encontrou recortes de peridico. Dois eram dos anos cinqenta, os bilhetes do Naomi e Samuel. Outro informava sobre a morte do Frank 
no Pearl Harbour. Tambm encontrou a carta em que o Ministrio de Defesa informava a Lula sobre a morte do Malcolm na Frana, durante a Segunda guerra mundial.
     Nas ltimas pginas da Bblia havia trs partidas de nascimento. Uma era de um menino que morreu ao nascer, chamado Malcolm Alvin Smith, outro da Ruth Anne 
Smith e o terceiro, do Thomas Edward Smith.
     Olhou a partida de nascimento do Tom e depois se levantou para procurar a sua prpria. Eram idnticas. Os dois tinham nascido no mesmo hospital da Saint Louis. 
Tom nasceu quatro minutos antes que Smith e pesou trs quilogramas oitocentos, trezentos gramas mais que ele. A me do Tom era Ruth Anne Smith, de pai desconhecido, 
enquanto que os Rutledge apareciam como seus pais.
     Qualquer dvida de que eram gmeos tinha desaparecido por completo.
     Era uma certeza.
     Uma dor tremenda o golpeou ento, to horrvel que tivesse desejado ficar a gritar.
     por que? por que?
     por que sua me o tinha abandonado?
     por que ficou com o Tom?
     por que?
     -Encontra-te bem? -perguntou Jessica.
     - que tenho tantas perguntas... Tom jamais te comentou que tinha tido um irmo?
     -No, nunca me disse nada. E tampouco falava muito de sua me. Os anos que passou com ela foram terrveis.
     -Maldita seja! por que no ficaram com os dois?
     -Quem?
     -Meus pais adotivos. Os Rutledge.
     -por que no os perguntas, Smith? No te afaste de uma famlia que te quis sempre. Pergunta tudo o que queira saber.
     -Como vo dizer me por que no ficaram com o Tom se se negarem a reconhecer que sou adotado?
     Smith golpeou o escritrio com o punho, frustrado, e Jessica, sem saber o que fazer para consol-lo, acariciou seu cabelo.
     Um segundo depois, ele tomava entre seus braos como se queria agarrar-se a algo. Apoiou o queixo em seu cabelo e a abraou. Solo a abraou. Com ela a seu lado 
no se sentia to sozinho.
     
     Ao dia seguinte, Jessica comeou a notar uma dor na boneca. Tentou costurar as bolsas, mas lhe resultava impossvel.
     Smith insistiu em que fora ao mdico. De fato, no s a levou a consulta, mas sim teria entrado com ela se no o tivesse impedido.
     s vezes a tratava como se fora sua me. Era lhe exaspere e, ao mesmo tempo, adulador. Gostava que cuidasse dela.
     O doutor Vargas lhe disse que no era nada grave, mas devia fazer um tratamento de fisioterapia e pediram entrevista para na segunda-feira seguinte.
     -Que cilindro. Estou farta disto -queixou-se no carro-. Tenho vontades de voltar para minha vida normal.
     -Sente pena de ti mesma?
     -Muita pena, sim. Tenho um milho de coisas que fazer, mas no posso fazer nada.
     -Pode fiscalizar o trabalho. Deve entender que seu negcio cresceu e j no tem que faz-lo tudo. Ter que te perder a diverso de criar coisas.
     -Isso  o que aconteceu com ti?
     Smith assentiu.
     -Comecei com os ordenadores quando estava na universidade. Era divertidsimo. Logo comecei a vend-los... e pouco depois tinha cem empregados. A partir de ento, 
terminou-se a diverso.
     Quando chegaram a casa, Juanita e as demais costureiras j tinham deixado de trabalhar e Jessica passeou pela oficina, nervosa.
     Smith a encontrou olhando pela janela, passando uma mo pelo brao.
     -Tem frio?
     -No,  que estou... no sei, incmoda. E um pouco desanimada.
     -Sabe o que creio? Que necessita umas frias.
     -Frias? No tenho tempo para frias. Devo levar as amostras  feira de Dallas Y...
     -No, srio, necessita umas frias para te esquecer de tudo. Ao menos um fim de semana. estiveste alguma vez na ilha Pai?
     -No.
     -Pois vamos.
     -Agora mesmo?
     -Claro. Solo est a uma hora daqui e nada calma os nervos melhor que o som das ondas.
     -Meus nervos esto perfeitamente.
     Smith sorriu.
     -Tem traje de banho?
     -No.
     -Compraremos um na ilha.
     
     Smith lhe havia dito que a ilha Pai era como outro mundo, tranqilo, depravado, sem problemas, sem pressas. E era certo. Suas preocupaes comearam a desaparecer 
assim que viu a praia.
     -Que estranho.
     -O que  estranho?
     -Assim que chegamos  praia foi como se algum me houvesse meio doido com uma varinha mgica... a tenso comeou a desaparecer.
     Smith sorriu.
     -me passa o mesmo cada vez que venho aqui. antes de que a encontrassem os turistas estava muito melhor, mas enfim...
     -No se pode ter tudo.
     -No,  verdade. vamos comprar te um traje de banho.
     No passeio martimo havia vrios hotis e muitas lojas para os turistas. Smith deteve o carro frente a uma luxuosa boutique.
     Enquanto ela olhava uns trajes de banho, ele olhava outros. E, curiosamente, elegia os mais pudicos.
     Jessica se levou seis trajes de banho ao provador: trs dos que Smith tinha eleito e trs biqunis diminutos. depois de provar-lhe decidiu-se por um traje de 
banho azul eltrico e um biquni rosa que no deixava quase nada  imaginao.
     Tinha pensado sair com ele do provador, mas decidiu no faz-lo. Se o fazia, certamente ao pobre lhe daria um enfarte.
     Smith a esperava com um chapu de palha na mo. E umas sandlias. E um emparelho.
     -No necessito todo isso.  muito caro. Agora vai bem, mas se comear a gastar dinheiro como uma louca ficarei em nmeros vermelhos.
     - um presente.
     -Disso nada. Eu pago por meus prprios trajes de banho... que so muito caros, por certo. Poderia ter comprado um pouco parecido pela metade de dinheiro.
     -Por favor, Jessica,  minha convidada -insistiu ele-. Quero comprar isto. E isto...
     Quinze minutos depois saam da boutique carregados de bolsas. Calas de esporte, uma camisa, um vestido azul... Ela tinha tentado protestar, mas no serve de 
nada. Ao Smith sobrava o dinheiro e era impossvel convencer o de que a deixasse pagar por suas compras.
     depois de guardar as bolsas no assento traseiro do carro, seguiram pelo passeio martimo at uma zona mais tranqila e, por fim, chegaram a uma casa frente 
ao mar.
     -Esta  sua casa? -perguntou Jessica, entusiasmada.
     -Sim. Voc gosta? 
     - incrvel.
      obvio, o interior era espetacular. -eu adoro, eu adoro... O salo-comilo tinha o cho de mrmore branco e os mveis da mesma cor. Mas o espetculo mais incrvel 
estava na terrao.
     Jessica deixou as bolsas e abriu a porta de cristal. No jardim, uma piscina de guas azul turquesa e, depois dela, o oceano. A menos de cinqenta metros, as 
ondas caam umas sobre outras lavando a areia.
     -Isto  fabuloso... vamos dar um passeio pela praia antes de que oscurezca.
     Jessica se tirou as sapatilhas e baixou os degraus do alpendre  carreira.
     -Vejo que voc gosta -sorriu Smith. 
     -eu adoro!
     -Me alegro muito de que voc goste. 
     Uma hora depois, quando j tinha escurecido, caminharam de volta para a casa. 
     -Se fosse minha, viveria aqui todo o tempo. 
     -Eu estou acostumado a vir freqentemente. Eu gosto de ir pescar ou sair com o navio... 
     -Tem um navio?
     -Tenho dois. Esto amarrados no mole de Porto Isabel. Tenho um navio de pesca e outro que estou acostumado a usar para ir navegar. Voc gosta de navegar?
     -No o tenho feito nunca. Mas sempre eis querido faz-lo. Nos filmes parece muito divertido -sorriu ela-. Embora no deve ser nada fcil, no?
     -A verdade  que no.
     -Pois no creio que possa te ajudar com a boneca assim...
     Smith soltou uma gargalhada.
     -No vamos competir na Taa a Amrica, no se preocupe. Eu me encarrego das velas e voc sozinho tem que te apoiar na amurada e olhar o mar, de acordo? Se amanh 
fizer bom tempo, iremos navegar no Meg.
     -O Meg? O nome de alguma antiga noiva?
     -No.  o diminutivo do Megabite, j sabe, como nos ordenadores. O grande se chama Gi-gabite. Tem fome?
     -Comeria- um cavalo.
     -H um restaurante aqui perto que serve o melhor linguado do mundo. Gosta?
     -Muito. Mas tenho que me trocar.
     -No faz falta. Alm disso, est muito bem assim. Jogo-te uma carreira -disse Smith ento, correndo para a casa.
     -Espera! -gritou Jessica, correndo atrs dele.
     Aquele era um Smith Rutledge completamente novo.
     E gostava de muito.
     
     Captulo Dez
     
     -Olhe -disse Smith, assinalando algo com a mo.
     Jessica estava a seu lado na coberta do Meg, emocionada. Havia golfinhos nadando ao redor do navio enquanto saam de Lacuna Me para as guas do golfo. Devia 
haver uma dzia deles saltando sobre a gua, como se estivessem jogando esconderijo.
     -So como Flipper!
     -No posso acreditar que nunca tenha visto um golfinho.
     -Pois acredita-o. Solo os tinha visto nos filmes ou na televiso. Alguma vez tinha visto um golfinho, o que acontece? Bartlesville no est precisamente perto 
do mar e no viajei muito -sorriu Jessica, levantando a cara para receber a fresca brisa do mar-. Isto  maravilhoso. eu adoro navegar.
     Sorrindo, Smith moveu o leme. 
     -Mas se acabarmos de sair de porto. 
     -D igual. eu adoro.
     Estava maravilhada pelo suave movimento do navio sobre a gua, pelo som das ondas golpeando o casco... Era to feliz, que nada podia p-la nervosa.
     As rugas na frente do Smith tinham desaparecido desde que passaram sob a ponte da baa. E desapareceram por completo meia hora depois. Evidentemente, para ele 
navegar era igualmente tranqilizador.
     Apoiando-se no respaldo dos amaciados almofades de coberta, Jessica deixou escapar um suspiro.
     -Isto  vida. Poderia me acostumar.
     Mas se recordou a si mesmo que viver assim para sempre no era possvel. Em uma semana se teria partido de sua casa, e as preocupaes pelo negcio e todo o 
resto apareceriam por si s.
     Navegaram durante toda a manh e s a fome os fez voltar para porto.
     depois de comer no clube nutico, decidiram voltar para casa para nadar um pouco. Jessica ficou o traje de banho azul e notou por sua expresso que ao Smith 
parecia muito provocador. E era certo. O decote das costas era indecente e o frontal chegava quase at o umbigo.
     "Estupendo", pensou.
     Smith emitiu uma espcie de gemido ao v-la e ela tentou no soltar uma gargalhada enquanto se colocava o emparelho ao ombro.
     -Comeu-te a lngua o gato?
     -No, absolutamente. Mas pode que faa frio...
     -Crie que deveria me pr um casaco?
     -No creio que faa falta. Est segura de que esse  um dos trajes de banho que escolhemos?
     -Certamente.  que voc no gosta? -perguntou Jessica, logo que dissimulando a risada.
     -Sim... bom,  uma maravilha de engenharia. 
     -supe-se que isso  um completo? 
     - um pecado e est... est preciosa. 
     Ela sorriu. sentia-se preciosa. 
     -Obrigado. Voc tampouco est mau. 
     Smith ia lhe dar um tapinha no traseiro, mas Jessica saiu correndo para a praia.
     O sol tinha esquentado a areia e era uma tarde perfeita para encharcar-se um pouco. Pouco, porque a gua estava fria. Mas jogaram na gua como meninos e depois 
caram rendo sobre as toalhas.
     -Obrigado por me trazer aqui. Poderia viver nesta casa para sempre. -Sabia que ia gostar de te. -vou vir aqui com minha caravana cada vez que tenha uma oportunidade.
     -Minha casa  sua casa. Pode vir quando quiser. -Obrigado.
     Smith fechou os olhos e ela aproveitou a oportunidade para admirar seus peitorais e os abdominais marcados. Ento descobriu que tinha uma cicatriz no peito. 
     -O que  isto? 
     -Uma cicatriz.
     -Isso j o vejo, tolo. Do que? 
     -Uma operao de corao. 
     -O que? Mas se no ter nem quarenta anos. 
     -Operaram-me quando tinha dois anos. Nem sequer me lembro. 
     -O que te passava?
     -Que no me funcionava bem uma vlvula. Felizmente, como meu pai  cardiologista, operou-me o melhor cirurgio do pas.
     -Seu pai  cirurgio?
     - especialista do corao, mas solo trata adultos. Levou-me a um cirurgio especializado em meninos e tudo saiu Estupendamente. Nunca tive problemas para jogar 
futebol nem para nada.
     -A que se dedica seu irmo Kyle?
     - mdico, cirurgio plstico.
     -E a ti alguma vez te ocorreu estudar medicina?
     -Nunca. O sangue me pe nervoso. Eu prefiro trabalhar com coisas que no dizem ai! quando as toucas.
     Jessica soltou uma gargalhada.
     -Como ordenadores ou laranjas?
     -Exatamente. Sempre me gostaram das novelo, ver crescer coisas... Nesse sentido, creio que Tom e eu nos parecamos muito.
     -A ele lhe davam muito bem as novelo. Tivemos um horta e seus pssegos eram os melhores do condado. Me rompeu o corao quando tive que vender a granja, mas...
     -por que a vendeu?
     -Por razes econmicas -respondeu ela. Mas no queria seguir falando do assunto-. Tenho vermelha o nariz? Pica-me.
     Smith enrugou a sua.
     -Te ps muito vermelha... vamos dentro. Porei-te um pouco de aloe beira antes de que lhe saiam ampolas.
     Uma vez na cozinha, Smith tirou um bote de nata de uma gaveta.
     -Porei-te um pouco nas costas. 
     -Ah, que bem. A verdade  que me arde -suspirou Jessica.
     -Sinto muito, deveria me haver lembrado antes da nata. Este sol  muito traioeiro.
     -A verdade  que eu no estou acostumado a me queimar. Suponho que ser meu sangue cherokee.
     -Cherokee? Eu sou em parte... -Smith no terminou a frase-. Enfim, como o av Pete e eu no somos parentes de verdade, em realidade no sou em parte cherokee.
     -Sim o . Malcolm Smith era quarteiro. E creio que Lula tambm tinha sangue a ndia, mas no sei de que tribo. Todo mundo no Oklahoma tem algo de sangre a 
ndia nas veias. me fale de seu av.
     - um personagem -sorriu ele-. Eu sempre o idolatrei. Cherokee Pete o chama todo mundo. Leva tranas e tem um grande senso de humor. Embora seja mais rico que 
o presidente dos Estados Unidos, comporta-se como se fora um tipo normal e corrente. Mas tem uma biblioteca incrvel e o l tudo, desde noveluchas at o Kant.
     Enquanto falava, estendia a nata por suas costas e Jessica no pde evitar um suspiro. Lhe dobravam os joelhos ao sentir o calor daquelas mos sobre sua pele. 
     -eu adoraria conhec-lo. 
     -Se algum dia passar pelo leste do Texas, v visitar o. Convidar a uns chiles picantes e te ensinar seu mascote: uma serpente de cascavel.
     -O que?
     -O que ouve. Date a volta -disse Smith ento, com voz rouca.
     Jessica obedeceu.
     Ele ps um joelho no cho, encheu-se a palma da mo de nata e comeou a pass-la por suas pernas. Era uma das experincias sensuais mais excitantes de sua vida.
     Mas quando roou o interior de suas coxas, teve que sujeitar-se  mesa.
     O mantinha a cabea baixa. Durante o que lhe pareceu um sculo, seus dedos descansaram no bordo do traje de banho, perto de seu entrepierna.
     O desejo era incontrolvel.
     -Smith?
     -No diga nada. me d um minuto -disse ele, levantando-se-. Pode te pr voc a nata? -perguntou, sem olh-la.
     Jessica se mordeu os lbios.
     -No, prefiro que o voc faa.
     Smith comeou a lhe pr nata nos braos; primeiro um, logo o outro.
     O calor que sentiam no tinha nada que ver com o sol.
     Ento baixou as tiras do traje de banho para estender a nata por seus ombros. Ao faz-lo, roava seus peitos com o canto da mo.
     E quando chegou ao decote, levantou o olhar. Em seus olhos havia uma expresso de desejo impossvel de dissimular.
     Jessica temia uma excitao que no havia sentido nunca. Seu ventre ardia e o bote de aloe beira que tinha na mo caiu ao cho.
     -Jessica -murmurou ele-. Isto est me matando. me diga que pare.
     -No pares. Por favor, no pares.
     Smith colocou a mo por debaixo do traje de banho para tocar seus peitos.
     -Preciosa -murmurou-.  preciosa. Quero te provar... solo um pouco.
     inclinou-se para roar um mamilo com a ponta da lngua e ela quase perdeu a cabea. Aga-rrndose a seus ombros, esfregava seus peitos contra a boca do homem.
     Lanando um gemido rouco, Smith lhe baixou o traje de banho de um puxo.
     -No pode imaginar quantas noites estive acordado desejando te despir. E desejando fazer isto -disse ento, ficando de joelhos diante dela para afundar a cara 
em seu pbis-. E maldita seja... quero mais. Quero-o tudo.
     -Eu tambm -murmurou Jessica-. Por favor, estou-me morrendo...
     Smith a levou a dormitrio em braos. Assim que a deixou sobre a cama, tirou-se o traje de banho e procurou uma camisinha. Estava espetacularmente rgido e 
ela o observou, excitada, enquanto o punha.
     -A prxima vez ser melhor, carinho, juro-lhe isso. Mas agora no posso esperar. Desejei-o durante muito tempo.
     -No quero que espere -murmurou Jessica, abrindo as pernas-. Estou to preparada como voc.
     Ficando de joelhos, Smith levantou seus quadris para beij-la intimamente. E ela quase caiu da cama.
     -Est quente... e mida. Poderia te comer.
     -Quero-te dentro de mim. Agora, rpido.
     -Jessica...
     Levantando a cabea, procurou sua boca com nsia e a penetrou de uma vez, sua lngua movendo-se ao mesmo ritmo que seu membro viril.
     Aquela invaso a fez gritar de prazer. O orgasmo durou e durou, convulsionando seu corpo e detonando uma explosiva ejaculao masculina.
     -OH, Jessica. Meu amor, carinho... -repetia ele uma e outra vez, tremendo to violentamente que a cama se movia-. Maldito seja Tom. Maldito seja por te haver 
tido antes!
     
     Captulo Onze
     
     Atnita pelas palavras do Smith, Jessica ficou imvel.
     -por que h dito isso?
     -Sinto muito, de verdade. Sou um idiota. Sei que cada vez que me olha v o Tom... vivo outra vez.
     -Equivoca-te. Conheo a diferena, asseguro-lhe isso. Tom j no est. Sei perfeitamente. deixei atrs o passado faz tempo, Smith. E voc  nico. E era a ti 
a quem desejava, solo a ti. foi contigo com quem tenho feito o amor -murmurou ela, apoiando a cabea sobre seu peito-. Nenhum homem me tem feito sentir isto, asseguro-lhe 
isso. Nenhum homem.
     -Eu gostaria de acredit-lo.
     -Pode acredit-lo, Smith. At que te conheci, sempre me tinha considerado mas bem... -xualmente tmida. Mas agora solo penso em me deitar contigo.
     Ele soltou uma gargalhada.
     -me passa o mesmo. No dormi bem desde que te vi na cafeteria.
     -Sero as famosas feromonas?
     -Ser que tem uns olhos preciosos. Ou sua boca, ou esse sorriso matador. Ou este furinho no queixo... Ou possivelmente este precioso traseiro que me volta louco 
-riu Smith, acariciando suas ndegas-. Carinho, sonhei com isto.
     No houve um s centmetro de sua pele que no beijasse ou acariciasse. E Jessica gozava com cada carcia como nunca antes lhe tinha ocorrido. Nunca lhe tinham 
feito o amor dessa forma, como se fora uma deusa a que terei que adorar.
     sentia-se como a mulher mais desejvel do mundo, livre de inibies. Gesso lhe deu poder para explorar novos prazeres, proibidos at ento.
     Smith parecia am-lo tudo nela. E quando chegaram ao clmax juntos, seus olhos se encheram de lgrimas.
     Seu corpo se convulsionou com um segundo orgasmo, to potente como o primeiro. Embriagada de emoes, comeou a chorar.
     -Jess, carinho, est chorando?
     -Eu... creio que te quero.
     Smith a apertou contra seu corao, sorrindo.
     -Isso espero, cu. Isso espero.
     
     Fizeram o amor durante toda a tarde. Depois, tomaram banho juntos e voltaram a fazer o amor.
     Smith insistiu em secar seu cabelo com o secador. Desfrutava de cada segundo com ela. No o tinha passado to bem em muitos anos.
     -Seguro que sabe o que faz? Meu cabelo  muito encaracolado e no resulta fcil de dirigir.
     -Confia em mim, carinho. Quando era um pirralho eu tambm tinha o cabelo encaracolado. Tinha uma juba que era o terror de minha me e tubo que aprender a me 
pentear para no parecer um ourio. Alm disso, meu cabelo era muito duro, mas o teu eu adoro... a cor, a textura.  to suave como o cetim.
     Jessica sorriu.
     -Quantos adulaes. Deve ser o irlands que h em ti.
     -Irlands?
     -Tem aspecto irlands. Sempre pensei que seu pai...
     -Poderia ser. Uma pena que nunca possa me inteirar -suspirou ele. Uns segundos depois apagou o secador e voltou para a Jessica, de cara ao espelho-. O que te 
parece?
     -Est... muito encaracolado -riu ela-. Pareo uma mescla de Diana Ross e Dolly Parton.
     -me parece que est muito sexy.
     -De verdade?
     -De verdade. Eu gosto de ver seu cabelo estendido sobre o travesseiro. No sei por que sempre leva acrscimo... embora esteja preciosa de todas formas, claro.
     Jessica lhe deu um beijo na bochecha.
     -Tenho fome. Gosta de um sanduche?
     -Que tal um coquetel de frutos do mar e uma taa de champanha? Ponha o vestido novo e te levarei a danar.
     -A danar? Voc sabe danar?
     -A Batata  catlica? Carinho, eu adoro danar. Minha me e sua irm eram umas peritas e nos ensinaram a danar a todos.
     -Srio?
     -Ensinaram-nos a desfrutar das coisas boas da vida. Sei danar a valsa, o fox-trot, o cha cha cha... inclusive o tango.
     -eu adoro danar, mas faz sculos que no o fao. No sei se me lembrarei.
     -Tom no te levava a danar?
     -No gostava de muito.
     -Nisso no nos parecemos -sorriu Smith-. No se preocupe, j te lembrar. te pinte as unhas dos ps e te ponha as sandlias de salto. Esta noite vamos de festa 
-disse ento, mordiscando seu ombro-. Bom, dentro de um ratito...
     Rendo, Jessica se apartou.
     -Disso nada. Antes temos que comer... e danar. Vstete. Estarei lista em quinze minutos.
     Enquanto a via partir, Smith sorria como o gato que se comeu ao canrio. sentia-se de maravilha. Como se algum tivesse aceso uma luz dentro dele. Estava louco 
por ela, completamente louco. Se no fora por...
     No, no ia pensar nisso. Pensava desfrutar daquele fim de semana. Durante um par de dias, pensaria que Tom nunca tinha existido. Ou, ao menos, tentaria-o.
     
     Jessica encontrou laca de unhas em uma das gavetas do banho. Tentando no perguntar-se de quem seria, pintou-se as unhas dos ps enquanto cantarolava uma cano.
     O vestido azul que Smith lhe tinha agradvel ficava perfeito. Chegava at os tornozelos e tinha uma abertura na perna quase at a coxa.
     Embora tinha o nariz ainda um pouco tinta, podia dissimul-lo com maquiagem. No necessitava ruge, solo um pouco de brilho de lbios e mscara nas pestanas.
     No estava mau... para quem gostasse da imagem de "recm levantada da cama". Jogou-se o cabelo para trs, sujeitando-o com um clipe, e deixou um par de mechas 
soltas ao redor da cara.
     Uns brincos de prata e um toque de perfume... Ento olhou seus ps nus. Sapatos, necessitava sapatos.
     As sandlias brancas que Smith insistiu em comprar eram perfeitas.
     E estava preparada. Em vinte minutos.
     Quando abriu a porta do dormitrio, ele estava esperando, muito bonito com uma camisa verde e calas de cor cqui. E a luz que brilhou em seus olhos ao v-la-a 
esquentou por dentro.
     -Est muito bonito, carinho.
     Jessica levantou um p para lhe mostrar seus uitas pintadas de rosa.
     -Voc gosta?
     -Est perfeita.
     -Seguro que isso o diz a todas seus amigas -disse ela, fazendo uma careta.
     -No tenho amigas. Faz tempo que no as tenho.
     Isso gostou. Embora tentou dissimul-lo.
     
     Jessica deixou escapar um suspiro enquanto apoiava a cabea no peito do Smith. Estavam danando uma cano romntica na pista de baile.
     O coquetel de frutos do mar tinha sido delicioso, o bolo de pescado fantstico e Smith era um bailarino de fbula.
     -No danava assim dos dezesseis anos. Tinha esquecido quanto eu gostava.
     -Uma pena. Te d muito bem.
     E era certo. Tinha comeado a recordar todos os movimentos entre seus braos. Smith estava muito bonito aquela noite... e a Jessica no tinham acontecido desapercebidas 
os olhares de outras mulheres.
     Curiosamente, sentiu o absurdo desejo de lhes dizer que deixassem de olhar ou lhe pr um pster nas costas que dissesse: " meu!"
     Tinham a pista de baile quase para eles sozinhos. Havia gente na barra do bar e nas mesas, mas se foram partindo  medida que passavam as horas, deixando-os 
solos com o disc jquei e o garom. Smith lhes tinha dado uma boa gorjeta e pareciam dispostos a ficar at o amanhecer.
     -Est cansada?
     -um pouco. Mas no quero que termine a noite. Estou-o passando muito bem. Alm disso, ainda no danamos o cha cha cha.
     Smith sorriu.
     -No creio que o disc jquei tenha esse tipo de msica. vou perguntar lhe... quer uma taa?
     -Outra tnica, por favor.
     Jessica se sentou enquanto ele ia falar com o disc jquei.
     -No tivemos sorte com o cha cha cha, mas acredita que tem algum ritmo latino. vai comprovar o enquanto tomamos algo.
     Ao final, quo nico tinha eram ritmos caribenhos, molho, lambada... de modo que decidiram partir.
     -Creio que tenho algum tango em casa -disse-lhe ao ouvido-. Podemos nos despir e danar na cozinha.
     -Smith! -riu ela, correndo para o carro.
     
     Danar nua na cozinha era uma experincia completamente nova para ela. Mas o fizeram... e adorou.
     Fez muitas coisas aquela noite que no tinha feito antes. E as desfrutou de todas.
     Era maravilhoso poder dizer e fazer o que quisesse e se sentia embriagada de liberdade.
      manh seguinte, voltaram a tomar o navio. Jessica estava comeando a ser uma perita... no leme.
     Smith lhe ps nata por todo o corpo e a aplicao tinha dado lugar a outras coisas. De fato, alguns dos stios onde ele insistia em pr nata nunca veriam a 
luz do sol.
     A temperatura era maravilhosa e no havia ningum em muitas milhas marinhas  redonda, de modo que navegaram durante uma hora nus por completo. Era sensacional.
     -Isto eu adoro -murmurou Jessica, ao leme, com o Smith acariciando-a por detrs-. No posso acreditar que esteja fazendo-o.
     -Eu tampouco.
     -No o tinha feito antes?
     -No me tinha ocorrido at que te conheci. Inspira-me, carinho -suspirou Smith, colocando uma mo entre suas pernas.
     -Se segue fazendo isso vamos terminar na gua.
     -Eu te salvarei. No se preocupe.
     E o fez.
     E depois trocaram de stio.
     sentia-se completamente desinhibida. Era maravilhoso.
     -Seguro que os do helicptero o esto acontecendo bomba -disse Smith ento.
     -Que helicptero? -exclamou Jessica.
     Ele soltou uma gargalhada.
     S havia nuvens e um par de pssaros no cu.
     -Era uma brincadeira.
     -Ser tolo! Que susto me deste.
     -Sinto muito, cu. Mas  que contigo me sinto como um menino travesso.
     -Sei, me passa igual. Entrar nessa cafeteria do Harlingen  o melhor que tenho feito em toda minha vida. Quero-te muito, Smith.
     
     Aquela noite, Smith tinha o corao em um punho. Jessica dormia em seus braos e as ondas golpeavam ritmicamente a praia. Sexualmente satisfeito... sexualmente 
exausto, deveria haver ficado dormido.
     Mas no o estava. Estava absolutamente acordado.
     Pensando no Tom.
     E na Jessica. Sua mulher.
     Smith o tinha tido tudo: educao, dinheiro, uma famlia, montes de oportunidades... Seu av lhe tinha agradvel um milho de dlares quando se graduou na 
universidade e, como ele tinha dobrado essa quantidade em pouco tempo, Cherokee Pete lhe deu dez milhes mais, o trato que tinha feito com todos seus netos.
     Tudo o que tocava se convertia em ouro, seu negcio prosperava, tinha as casas de seus sonhos e podia deitar-se quase com qualquer mulher. A vida tinha sido 
estupenda at que se inteirou de que seus pais no o eram de verdade.
     Aquilo foi um golpe terrvel, mas nada comparado com o que Tom teve que sofrer.
     Sua outra metade tinha tido uma existncia terrvel, sem pai conhecido e com uma me dro-gadicta. No pde terminar a carreira e teve que ficar a trabalhar 
quando era muito jovem. Quo nico o fez feliz na vida foi seu trabalho, sua granja... e sua mulher.
     Mas o destino lhe jogou outra m passada quando ficou paralisado por um acidente. No podia caminhar por sua horta, nem montar a cavalo... teve que vender sua 
granja para pagar as dvidas e seu negcio se arruinou porque no podia trabalhar.
     E Jessica, sua mulher.
     Certamente foi o melhor de sua vida. Tom morreu e tambm a perdeu a ela. Perdeu-a, deixando-a com um monto de dvidas.
     E naquele momento, em lugar de honrar a memria de seu irmo, Smith se tinha levado a sua viva  cama.
     No era culpa da Jessica. Estava seguro de que conscientemente ou no, ela seguia pensando no Tom.
     At isto lhe tinha roubado Smith a seu irmo.
     Tentava racionalizar seus sentimentos, mas se sentia terrivelmente culpado.
     
     Captulo Doze
     
     O aroma a caf recm feito despertou a Jessica. Alargou a mo para procurar o Smith, mas ele no estava na cama.
     -bom dia, espreguiadeira -saudou-a ele quando entrou na cozinha-.  hora de voltar para a civilizao. Como voc gosta dos ovos?, revoltos?
     Ainda meio dormida, ela enredou os braos ao redor de sua cintura e apoiou a cara em suas costas.
     -No quero ovos. Necessito um caf. Temos que voltar para o Harlingen?
     -Temo-me que sim, Cinzenta. Tem que levar um negcio e eu tambm. E esta tarde tem sesso de fisioterapia.
     -Eu creio que j no necessito fisioterapia. Agora uso muito melhor a mo, v? -riu Jessica, colocando a mo em sua braguilha.
     -Por favor, Jess! Se comearmos assim... me queimassem as omeletes e chegarei tarde  reunio.
     -Que reunio?
     -por que no toma banho rapidamente? Quando voltar, ter o caf da manh preparado.
     um pouco surpreendida por sua atitude, Jessica tomou uma taa de caf e voltou para a habitao. Desde quando lhe importava mais se se queimavam umas omeletes 
que fazer o amor com ela? Mas tinha mencionado uma reunio... possivelmente era importante.
     Smith estava servindo os ovos mexidos no prato quando entrou de novo na cozinha.
     -Isto tem boa pinta. Sabe cozinhar? -riu ela, abraando-o.
     -Cuidado, vais queimar te. E no sei cozinhar, solo sei fazer ovos mexidos ou fritos. Tambm sei abrir latas, claro. Sente-se, anda. Quer gelia?
     -No, obrigado.
     Tomaram o caf da manh olhando o mar e Jessica desejou estar de novo no navio, em lugar de ter que voltar para o Harlingen.
     -Como pode partir daqui? Eu viveria nesta praia toda a vida.
     -s vezes me resulta difcil, mas me recordo mesmo que at o paraso resulta aborrecido se fica muito tempo. Assim o desfruto mais.
     -Possivelmente poderamos voltar o prximo fim de semana.                                                  
     -Tem que ir a Dallas, recorda? Para a feira.                         
     -Ah, sim,  verdade. E tenho um milho de coisas que fazer. Vir a Dallas comigo?
     -Sinto muito, mas no posso. Tenho uma reunio do conselho de administrao e tenho de preparar muitos papis.
     -Ah, claro -murmurou ela, sentindo-se culpado. Estava deixando o trabalho a um lado por sua culpa.
     Desde que chegou ao Harlingen, o pobre logo que pisava no escritrio. E uma empresa como a sua no se dirigia sozinha.
     -Fez a mala?
     -Sim, j est tudo preparado.
     -Estupendo -sorriu Smith-. Pode deixar os pratos na pia. A criada chegar dentro de meia hora.
     
     Se Jessica tinha visto como Smith se animava na ilha, viu que ocorria justo o contrario ao voltar para o Harlingen. quanto mais se aproximavam, mais srio ficava.
     Logo que tinha podido lhe tirar duas palavras. Era muito amvel, como sempre. Smith sempre era amvel. Mas comeava a estar... distante.
     E os pararam por excesso de velocidade. Felizmente, conhecia polcia e s recebeu um olhar de reprimenda.
     Parecia ter uma pressa enorme por chegar a casa. Quando Jessica o mencionou, sua nica resposta foi:
     -Quando tenho coisas na cabea, estou acostumado a pisar no acelerador sem me dar conta. Perdoa.
     -Posso fazer algo?
     -No.
     Quando chegaram a casa, recebeu uma tremenda surpresa: ele deixou a mala na porta de seu dormitrio. Jessica pensava que foram dormir juntos, mas... no era 
assim.
     E isso lhe doeu. ia dizer se o mas no se sentia to desinhibida como no dia anterior. Havia uma barreira entre eles.
     -Tenho que ir ao escritrio -disse Smith, olhando seu relgio-. Certamente estarei encalacrado todo o dia. Ric te levar a sesso de fisioterapia.
     -No necessito que me leve ningum. Posso ir eu sozinha se no te importa me emprestar um de seus carros. Ou posso alug-lo.
     -No faz falta que o alugue, Jessica. Tenho uma garagem cheia de carros, assim pode escolher o que queira. Eu creio que o BMW  o mais fcil de manobrar. Necessita 
algo mais?
     Surpreendida pela mudana de atitude, ela o olhou, atnita.
     -No -disse por fim-. No necessito nada. Smith Rutledge desapareceu como alma que leva o diabo.
     -Falando do Jekyll e Hyde...
     Possivelmente se parecia mais ao Tom do que tinha acreditado. Tom sempre foi um pouco distante, mas ela sabia quando estava de mau humor e o deixava em paz. 
Enfrentar-se com ele era quo pior podia fazer. Possivelmente Smith era da mesma forma.
     Isso a preocupou.
     No, no podia acreditar que fosse como Tom. Algo o preocupava. O negcio, certamente.
     Uns minutos depois, foi  oficina onde Juanita e outras duas mulheres estavam trabalhando.
     Na hora de comer elas se foram e Jessica ficou desenhando novos modelos.
     Mas no fez muito. No podia deixar de olhar pela janela, recordando a ilha, o navio, o vento na cara e as mos do Smith sobre seu corpo.
     -Senhorita Jessica?
     Rosa estava frente a ela com a bandeja do almoo na mo.
     -Ah, obrigado.
     -Tem que comer algo.
     -Creio que comerei ao lado da piscina.
     ia tomar a bandeja, mas o ama de chaves insistiu em lev-la.
     -J no me di a boneca. Posso faz-lo eu.
     -O senhor Rutledge me h dito que cuide de voc e penso faz-lo.
     -Muito bem. De acordo.
     Comer sozinha ao lado da piscina no foi nada divertido. Jessica tomou um pouco de salada e depois foi trocar se para a sesso de fisioterapia.
     
     A casa estava em silncio quando voltou. Na cozinha, Rosa limpava feijes para o jantar. Tentou ajud-la, mas o ama de chaves se negou em redondo.
     Intento trabalhar, mas estava inquieta. E era muito cedo para chamar o Shirley, que seguiria no instituto.
     Mel. No tinha falado com ele em sculos. Animada pela idia de falar com seu adotivo, chamou a Florida.
     Mas Mel estava jogando domin com seus amigos e no voltaria at a noite, contou-lhe sua nora.
     Sentindo-se sozinha, passeou pela plantao e depois foi aos estbulos. Rio apenas lhe emprestou ateno, mas Doce, a gua, relinchou ao v-la.
     -Ol, bonita. Sinto no te haver trazido nada. Solo vim a conversar. Gosta?
     Doce levantou a cabea como se entendesse. Rendo, Jessica acariciou seu nariz. Depois comeou a escov-la, conversando sobre umas coisas e outras, sobre tudo 
do Smith e de quo estranho estava.
     -Os homens so muito estranhos, verdade?
     Doce moveu a cauda, olhando-a com uns olhos nos que quase podia ler: "J te digo".
     Meia hora depois soltou a escova.
     -Obrigado, Doce. Agora me sinto muito melhor. E espero que possamos conversar em outro momento.
     Era quase a hora do jantar quando voltou para casa.
     -chamou o senhor Rutledge -disse-lhe o ama de chaves com expresso compungida-. No pode dever jantar, assim Ricardo lhe servir quando voc diga.
     -Obrigado, Rosa. vou lavar me um pouco.
     Embora levava anos comendo sozinha, Jessica se deu conta de que se acostumou a ter companhia. A companhia do Smith. E a comida lhe teve sabor de carto.
     No s no foi jantar, mas sim no tinha chegado a casa quando ficou o pijama. Nem a meia-noite.
     Pela manh, Rosa lhe disse que se partiu muito cedo. E aquela noite tampouco foi jantar.
     - que tem muito trabalho. Problemas com a empresa e reunies, j sabe.
     Ao menos poderia cham-la, pensou Jessica. Ou entrar em sua habitao para lhe dar um beijo.
     Mas possivelmente essa era sua forma de lhe dizer adeus. Possivelmente o que tinham compartilhado o fim de semana foi mais importante para ela que para ele. 
No estava acostumada a aquele tipo de aventura. No conhecia as regras. Tom era o nico homem com o que se deitou e sua vida sexual era... bastante rotineira.
     Smith estava a anos de luz dela quanto a experincia. As coisas que lhe disse ao ouvido seriam sozinho frases feitas? Os dias que passaram na ilha Pai teriam 
sido sozinho um queda para ele? Estava muito confusa. E doda.
     Queria pensar que estava preocupado por seu negcio, queria lhe conceder o benefcio da dvida. Mas no pensava manter outra relao com um homem que a voltasse 
louca nem que a fizesse questionar-se seu prprio valor.
     Ao dia seguinte falaria com o Smith sobre seus sentimentos. E se no lhe contava o que estava passando, partiria. Montaria em sua caravana e se iria dali.
     Aquela noite dormiu abraada ao travesseiro. Mas despertou ao ver uma figura escura ao lado da cama.
     -Smith?
     -Perdoa que te tenha despertado. Durma, Jess.
     antes de que ela pudesse responder, foi-se.
     Jessica olhou o despertador. As duas da manh. Que demnios estava passando?
     -J est bem de tolices! -exclamou, apartando o edredom.
     Bateu na porta de seu dormitrio e entrou sem esperar resposta. Smith no estava ali, mas ouviu o grifo da ducha.
     Carregando nessa direo, ia murmurando para si mesmo o que pensava lhe dizer. O acla-rararan todo imediatamente, aquela mesma noite. No quarto de banho se 
era necessrio.
     Nu, empapado e atnito, Smith ficou olhando-a sem dizer nada. Seu membro estava erguido e, ao v-lo, despertou nela um desejo imediato. Tanto, que esqueceu 
a urgncia de sua misso.
     "por que vou desperdiar este momento?", disse-se a si mesmo.
     -No entre na ducha, Jessica.
     -por que no?
     -Porque... vais ficar te geada -suspirou Smith, fechando o grifo.
     -Temos que falar.
     - tarde. por que no falamos pela manh?
     -Amanh ter outra reunio e quero falar agora. Bom... possivelmente dentro de uns minutos. Por quem est to quente? -murmurou Jessica, envolvendo-o seductoramente 
em uma toalha.
     -Jess, por favor... No faa isso, carinho.
     Mas voltou a faz-lo, esfregando-se contra ele.
     -me diga por quem est to quente.
     Smith a beijou ento com um anseia que lhe deixou os joelhos trementes.
     -Por ti, tola.  por ti por quem estou quente. Est-me matando, Jess. Que Deus me ajude, no posso te apagar de minha cabea.
     Depois tomou em braos e se dirigiu  cama.
     E, ento, os dois se voltaram loucos.
     
     Jessica despertou s sete da manh na cama do Smith. Sozinha.
     Outra vez sozinha. E no tinham falado muito. Certamente, no falaram do que tinham que falar. E era evidente que Smith tentava evit-lo.
     Suspirando, levantou-se da cama e foi a sua habitao. Mas estava decidida: antes de que terminasse o dia ia falar com ele. Evidentemente, o problema no era 
que se cansou. A noite anterior no parecia cansado absolutamente. Mas passava algo. Um pouco muito estranho. No se acreditava a histria das reunies.
     Tentando esquecer do assunto, trabalhou com as costureiras toda a manh. Escolheu as bolsas que levaria a feira e, quando todos estavam guardados em caixas, 
foi  cozinha para tomar um copo de gua.
     Mas Rosa tinha outra mensagem para ela:
     -O senhor Rutledge no dever jantar.
     O anncio foi como um jarro de gua fria. Mas j estava farta daquele jogo.
     -Muito bem. Ento tampouco fico eu para jantar.
     depois da sesso de fisioterapia, foi  barbearia para cort-las pontas e faz-la manicura.
     Mais tarde se foi s compras, jantou em um restaurante chins e foi ao cinema a ver o ltimo filme do Mel Gibson. Eram quase as doze quando chegou a casa.
     Smith estava esperando na porta.
     -Onde demnios estiveste?
     Jessica piscou, atnita.
     -Perdoa?
     -Onde estiveste? -repetiu ele. Quase lhe saa fumaa das orelhas.
     -por a.
     -Onde?
     -Tinha reunies -respondeu Jessica, tentando entrar. Mas lhe bloqueava o passo.
     -Que demnios significa isso? O que estiveste fazendo?
     -Maldita seja, Tom, eu no tenho que te dar explicaes!
     Smith ficou plido.
     -No sou Tom. O est morto. Sou Smith. Sou Smith!
     -Sei...
     -Acaba de me chamar Tom. E eu no sou Tom! Nunca serei Tom. Levo duas horas te esperando, temendo que tivesse sofrido um acidente O... eu o que sei, algo pior.
     depois disso, saiu da casa dando uma portada.
     Jessica apertou os lbios, plida. por que lhe tinha chamado Tom? Possivelmente lhe escapou para ouvi-lo gritar. Inclusive antes do acidente, seu marido era 
paranico sobre o que fazia ou deixava de fazer.
     Depois foi muito pior. Ter que lhe dar explicaes de cada um de seus movimentos, voltava-a louca. E no voltaria a passar por isso. De maneira nenhuma.
     "Acabou-se. Parto-me".
     
     
     Captulo Treze
     
     Smith se dirigiu para a plantao. No estava zangado, a no ser assustado, aterrorizado. E seu maior medo acabava de fazer-se realidade: Jessica o tinha chamado 
Tom.
     Apesar de dizer que no, confundia-os. Seu engano freudiano o tinha deixado claro.
     Amaldioando e rezando de uma vez, caminhou entre as rvores a grande velocidade para acalmar-se e, por fim, deixou-se cair ao cho, com a cabea entre as mos. 
Que demnios ia fazer? Estava louco por uma mulher que amava a um homem morto.
     Seu irmo. Seu irmo gmeo ao que nunca conheceu.
     Tinha tentado afastar-se dela, tentou-o tudo, mas era uma febre, uma obsesso impossvel. Possivelmente seria melhor se no voltasse de Dallas. Possivelmente, 
com o tempo...
     Ento ouviu o rudo de um motor.
     Jessica.
     -No, no!
     Smith se levantou de um salto. Estava saindo da plantao quando viu que a caravana se dirigia para a grade de ferro. Decidido, plantou-se no meio do caminho 
e levantou os braos.
     Ela tocou a buzina, mas Smith no se moveu. Se partia, teria que faz-lo por cima de seu cadver. Se tinha que lutar por ela contra um fantasma, faria-o.
     A caravana se deteve, mas Jessica seguiu tocando a buzina. E ele no se moveu.
     -te aparte!
     -No penso faz-lo at que falemos!
     -Falar? Levo dias tentando falar contigo -replicou ela-. Mas tinha muitas reunies! te aparte!
     -Ter que passar por cima de mim. No penso me mover.
     Jessica ficou em silncio.
     -Muito bem. De acordo.
     -Apaga o motor e falaremos.
     Ela apagou o motor e abriu a lhe chiem porta da caravana.
     -Sobe.
     -No, baixa voc. Falaremos em casa, carinho.
     -No me chame "carinho". E no penso ir a casa. Se quer falar, sobe.
     Smith obedeceu.
     -Muito bem. Fala.
     -Sinto muito me haver posto assim, mas te quero e estava preocupado por ti.
     -Diga-o outra vez.
     -Estava preocupado por ti.
     -No, o outro.
     -Sinto me haver posto assim.
     -No, o outro -insistiu Jessica.
     -Quero-te.
     -Nunca me havia isso dito.
     -Claro que lhe tenho isso dito.
     Ela negou com a cabea.
     -No. Eu lhe tenho isso dito uma dzia de vezes, mas voc no. Comeava a pensar que solo tinha sido um queda e queria te liberar de mim.
     -O que diz? Estou louco por ti, mas me confunde com o Tom Y...
     -Um momento! Eu no lhes confundo absolutamente. Sinto muito te haver chamado Tom, mas  que estvamos discutindo Y... soava como ele. Estava acostumado a me 
fazer a vida impossvel com seu cimes e interrogatrios Y... h coisas que no sabe sobre minha vida com ele, Smith.
     -No preciso sab-lo.
     -Sim, necessita-o. Crie que estava louca pelo Tom e que o vejo de novo em ti. Que por isso estou contigo. Mas no  assim. Deixei de am-lo antes do acidente. 
Suponho que no queria te desiludir com esta feia histria, mas  a realidade. Tem que saber a verdade sobre o Tom, Smith. Era um alcolico amargurado e uma pessoa 
com a que no se podia viver. Supliquei-lhe que fosse a Alcolicos Annimos, mas no me fez conta. Ao final, eu tive que ir a um psiclogo e assim encontrei foras 
para deix-lo. Levvamos vrios meses separados e eu tinha solicitado o divrcio quando sofreu o acidente. Tive que cuidar dele porque no tinha a ningum mais Y... 
porque necessitava meu seguro mdico.
     Nos olhos do Smith havia uma mescla de pena e raiva.
     -Maltratava-te?
     -Fisicamente? No. Emocionalmente? Sim, quase desde o comeo. Tom se negava a procurar ajuda. separava-se de mim, no me contava suas coisas... como voc tem 
feito estes dias. Passei por um inferno e no penso faz-lo outra vez, Smith.  melhor partir agora. Agradeo tudo o que tem feito por mim e sinto muito que nunca 
conhecesse seu irmo. Possivelmente poderia hav-lo ajudado... possivelmente no.
     -Pobre homem. No teve muitas oportunidades, no?
     -Isso no  verdade. Teve uma infncia difcil, como muita gente. Mas ele escolheu seguir sendo uma vtima. No o converta em um mrtir, Smith. E no seja como 
ele.
     -Eu no bebo.
     -Uma sbia deciso, mas no estou falando disso. No te separe da gente que te quer.
     -Voc me quer, Jessica?
     -claro que sim. Mas no estou disposta a suportar uma relao como a que tive com o Tom. Os casais precisam comunicar-se.
     -Estamos nos comunicando agora?
     Ela riu brandamente.
     -A que fala sou eu. No te deste conta?
     -Deixa que te explique por que eis estado me comportando como um imbecil estes dias.
     Smith esvaziou sua alma, lhe contando o culpado que se sentia por quer-la, seus medos de ser um mero substituto do Tom... O contou tudo.
     -Jess, quero-te com todo meu corao. Fica comigo e deixa que lhe prove isso. Juro que jamais voltarei a me levar como o tenho feito. Pode que me preocupe, 
mas manterei a boca fechada. E farei todo o possvel para me comunicar contigo como um ser civilizado, prometo-lhe isso -murmurou, beijando sua mo-. Me d outra 
oportunidade. me ajude a faz-lo bem.
     -Se disser que sim, far algo por mim?
     -O que queira.
     -irs ver seus pais?
     Ele no duvidou um segundo.
     -Se isso for o que quer, farei-o. Caminharia em cima de brasas acesas por ti, Jess.
     -No necessito que faa isso -riu ela, acariciando seu cabelo-. Solo quero que seja feliz. Sei que sua famlia te quer e te sente falta de.  hora de falar 
do passado e deix-lo atrs.
     -Tentei-o, mas no querem falar.
     -Pois eu creio que chegou a hora -sorriu Jessica, arrancando a caravana.
     -Onde vamos?
     -De volta ao celeiro.
     Smith sorriu.
     -Fez o amor na caravana alguma vez?
     -pergunte-me isso amanh.
     
     Jessica despertou nos braos do Smith e com o macaco de peluche em uma mo. Sorrindo se estirou, feliz.
     -bom dia, carinho -saudou-a ele.
     -bom dia.
     -Fez o amor em uma caravana?
     -Muitas vezes -riu ela-. Desde quando est acordado?
     -H um momento. Estava te olhando dormidita... Por certo, esse macaco  o boneco mais feio que vi em toda minha vida.
     Ela tampou as orelhas do peluche com as mos.
     -No diga isso. vais ferir seus sentimentos. Shirley me deu de presente isso por meu aniversrio antes de que comessemos com o negcio e me acompanhou em 
tudas minhas viagens. Que horas so?
     Smith olhou seu relgio.
     -Quase as oito. Quer tomar o caf da manh?
     -Sim. Tem reunies hoje?
     Ele se esclareceu garganta.
     -Ver... carinho, tenho que te confessar uma coisa.
     -Confessar?
     -Sim. Promete no te zangar?
     -No prometo nada. Cospe-o.
     -No tinha nenhuma reunio. Bom, nenhuma que durasse mais de uma hora.
     -Ento, o que estiveste fazendo estes dias?
     -Matando o tempo. Jogando s cartas, fazendo pesos no ginsio do escritrio... fazendo o que podia para me esquecer de ti. Mas no funcionava -murmurou ele, 
beijando-a brandamente nos lbios-. E agora solo posso pensar em um monto de tortitas com xarope de caramelo.
     -V, obrigado -riu Jessica, lhe dando uma cotovelada-. vamos tomar o caf da manh antes de que morra de fome.
     vestiram-se e baixaram rendo-se da caravana.
     -me recorde que compre uma cama maior... se por acaso voltamos a us-la -sorriu Smith-. Di-me o pescoo.
     -Darei-te uma massagem mais tarde. Sou uma massagista muito bom. Tomei lies quando Tom... perdoa.
     -No se preocupe. Sua vida com o Tom  um fato. No podemos ignorar sua existncia. J no passa nada, Jessica. Por certo, j no te di a boneca?
     -No. De fato, o fisioterapeuta me disse que no tinha que voltar. Mas devo fazer os exerccios em casa.
     -Ento, exijo minha massagem. por que no vais tomar banho te enquanto eu digo a Rosa que faa o caf da manh? Gostam de tortitas com nata?
     -Muito.
     Meia hora depois, tomaram-se seis tortitas cada um. Para recuperar foras.
     -vou ter que me pr a regime. J quase no posso me grampear os jeans... a partir de agora, s saladas. E tenho que fazer exerccio. Correr, possivelmente.
     -Pois ter que comprar umas boas sapatilhas. Podemos ir s compras esta manh.
     -J tenho sapatilhas, muito obrigado.
     -No, eu sou seu treinador a partir de agora e insisto em comprar as sapatilhas adequadas.
     -Sim, treinador -sorriu Jessica-. pensaste na viagem a Dallas? Eu estarei muito ocupada na feira e poderia falar com seus pais enquanto estou trabalhando.
     Smith ficou calado um momento.
     -Poderamos ir na sbado a visitar meu av. eu adoraria que o conhecesse...
     -Perdoe, senhorita Jessica -interrompeu-os Rosa-. H uma chamada para voc.  a senhora Myers, do Neimann Marcus.
     -Ah, sim... Ol, Sandi -saudou-a ela, tomando o sem fio-. Mandei-te o pedido ontem. Chegar amanh.
     -Estupendo, mas chamo por outra razo.
     Enquanto falava, Jessica tinha que conter seu entusiasmo.
     -Sim, parece-me uma proposta interessante. Deixa que fale com minha scia e te chamarei mais tarde.
     Quando pendurou o telefone, virtualmente ficou a dar saltos pela cozinha.
     -Yupi! Yupi!
     -Boas notcias, vejo -sorriu Smith.
     -Tenho que falar com o Shirley, mas agora est em classe. No me posso acreditar isso... simplesmente, no me posso acreditar isso.
     -O que passou?
     -Sandi diz que esto lhes tirando as bolsas de festa das mos. J os venderam todos e tm uma lista de espera. Neimann Marcus quer que assinemos um contrato 
em exclusiva durante dois anos, e vo pr os no catlogo de Natal! Lhe pode acreditar isso? -exclamou Jessica, deitando-se em seus braos-. O que te parece?
     -Primeiro ter que decidir se quer vender suas bolsas em um s mercado, ou desejas ampliar horizontes. Quantos empregados necessitaria para isso? Quanto espao? 
Garante-te Neimann Marcus um pedido mnimo anual? O que acontece os clientes das outras boutiques? Temo-me que para assinar esse contrato necessita um advogado.
     Lhe deu um beijo nos lbios.
     -Eu gosto de te ter perto. No me tinha ocorrido pensar em nada disso. vou fazer uma lista de tudo o que temos que considerar antes de chamar o Shirley.
     -Antes ou depois de ir s compras?
     -Hoje no tenho tempo para isso. Poderia correr um momento pelo jardim. Ou fazer pesos no ginsio.
     Estiveram uma hora no despacho falando sobre todas as contingncias de um contrato em exclusiva, e depois chamou o Shirley enquanto Smith ia nadar um momento. 
Quando chegaram a um acordo, chamou o Sandi Myers e depois foi a sua habitao para ficar o biquni rosa.
     Um minuto depois se atirava de cabea  piscina.
     -O que  isto, uma sereia? -brincou ele.
     -Shirley e eu tomamos uma deciso. Queremos servir a todos nossos clientes, mas nos interessa o contrato com o Neimann Marcus -respondeu Jessica, enredando 
os braos ao redor de seu pescoo-. Se mantivermos uma produo baixa de muito boa qualidade, nossas bolsas seguiro no mercado durante muito tempo, sem passar-se 
de moda. Alm disso, assim se justificar seu alto preo. Por certo, conhece algum bom advogado?
     -Duas dzias -riu Smith.
     -Estupendo. Sandi est enviando uma cpia do contrato agora mesmo.
     -Ento j no precisa ir  feira de Dallas.
     -Au contraire, monsieur. Desta no te escapa. Sandi quer que v a Dallas para conhecer grande chefe e assinar o contrato a semana que vem. Assim podemos visitar 
seus pais. Escolhe um dia.
     
     Captulo Quatorze
     
     -Nervoso? -perguntou-lhe Jessica enquanto conduziam pela avenida Highland. no domingo pela tarde era um dia tranqilo naquela zona de Dallas.
     -Como diria meu av Pete, estou mais nervoso que um peru em Natal. No sei como vo reagir meus pais. Solo lhes tenho dito que devia ir a v-los com uma pessoa.
     -Tudo vai sair bem. J o ver.
     -Isso espero.
     Quando chegaram frente  manso de tijolo visto, lhe fez um n na garganta.
     -Cresceu aqui? -perguntou Jessica.
     - muito diferente da casa em que viveu Tom, no?
     - uma casa preciosa, Smith. No tem por que te sentir culpado. Deveria estar orgulhoso.
     -E o estou. fui muito feliz aqui. Kyle e eu construmos uma casa em cima de uma rvore, como todos outros meninos. E minha me sempre estava preocupada de que 
nos rompssemos o pescoo.
     -Como todas as mes.
     Suspirando profundamente, Smith saiu do carro. Uns segundos depois, sua me abria a porta com um sorriso nos lbios.
     -Smith! -exclamou, abraando-o.
     -Ol, mame.
     -Filho -saudou-o seu pai.
     Quando Smith ia lhe dar a mo, o homem o abraou, lhe dando palmadas nas costas.
     -Ol, papai.
     -Me alegro muito de te ter em casa.
     -Ai, perdoa -disse sua me ento, olhando a Jessica-. Estamos to contentes de ver o Smith, que nos esqueceram as boas maneiras.
     -Mame, papai -disse ele ento, pondo um brao sobre seus ombros-. Apresento-lhes a Jessica, uma pessoa muito especial para mim.
     -Senhora Rutledge... doutor Rutledge -saudou-os ela.
     -Estamos encantados de te conhecer, Jessica. Mas nos chame Sarah e TJ. Nesta casa somos pouco jogo de dados s formalidades, especialmente desde que meu marido 
se retirou. Que pena que Kyle e Irish no estejam aqui... Mas o menino s tem dez dias e no param os pobres. Tm que ir ver os, Joshua  uma macacada.
     Jessica sorriu.
     -Parece que gostam de ser avs.
     .ns adoramos -riu T.J.-. vamos mimar o tudo o que possamos.
     -Isso est muito bem.
     -Por certo, sua me tem feito caf e bolo de chocolate, filho.
     -o de nozes, mame?
     -o de nozes. vamos cortar o.
     -Espera um momento. Antes quero lhes ensinar algo.
     Seus pais se olharam sem dizer nada. Foram ao salo e Smith tirou da maleta a fotografia do Tom e Jessica. Depois tirou outros papis que colocou sobre uma 
mesa de mogno.
     Sarah tomou a fotografia.
     -Aqui parece mais jovem. No sabia que lhes conhecessem...
     -No sou eu, mame.  Tom Smith, o defunto marido da Jessica. Morreu faz dois anos.
     Sarah tomou a mo de seu marido, que a ajudou a sentar-se em uma poltrona.
     -O que significa isto, filho?
     - a hora da verdade, papai -disse Smith, assinalando os documentos-. Esta  a partida de nascimento do Tom e esta  a minha... Estas so cpias de relatrio 
mdico da famlia. Este  meu grupo sangneo... estudei-o tudo a fundo. A semana passada recebi os resultados das provas de DNA que definitivamente me emparentan 
com uma mulher chamada Lula Smith. Est em uma residncia do Oklahoma. Era a av do Tom... e a minha tambm, creio. Est claro que sou adotado. Tom Smith era meu 
irmo gmeo, no?
     Sarah ficou a chorar e T.J. tentou consol-la.
     -Isto era necessrio? Olhe o desgosto que lhe est dando a sua me.
     - necessrio, papai. Quero-lhes muitssimo, mas preciso saber a verdade.
     Sua me levantou a cabea.
     -Tinha jurado sobre uma Bblia no lhe dizer isso nunca, filho. Ela no queria que o fizesse. E voc foi to pequeno... Se no te tivesse deixado conosco, teria 
morrido. Assim que o juramos.
     -A quem?
     -Deixa que te conte a histria -disse seu pai nesse momento, esclarecendo-a garganta-. Eu estava na Saint Louis ento. Kyle tinha dois anos e sua me estava 
grvida, mas perdeu ao menino no parto e ficou destroada. Na habitao do lado havia uma mulher que acabava de ter gmeos.
     - esta? -perguntou Smith, lhe mostrando uma fotografia da Ruth.
     -Sim. Esta . No estava casada e vivia da beneficncia... enfim, um dos meninos estava so e o outro, voc, tinha um problema de corao. Eu sabia que necessitaria 
muitos cuidados, uma operao... enfim, muito dinheiro para o tratamento. Sabendo que ns poderamos cuidar de ti, essa mulher aceitou que lhe adotssemos.
     -Para ela foi muito duro te abandonar -disse Sarah ento-. Mas sabia que no poderia cuidar dos dois meninos. Lhe partiu o corao, por isso nos fez jurar sobre 
a Bblia que nunca lhe diramos nada. E nos fez prometer que lhe chamaramos Smith. Eu quis romper esse juramento muitas vezes, mas... que Deus me perdoe por romp-lo 
hoje.
     -por que no adotaram tambm ao Tom?
     -Queramos faz-lo, mas ela no o permitiu. No podia separar-se dos dois meninos. Ao dia seguinte do parto partiu do hospital sem deixar uma direo, e nunca 
mais voltamos ou seja nada dela.
     -No lhes contou quem era meu pai?
     -No nos contou nada. Nem sequer de onde era.
     Smith deixou escapar um comprido suspiro. Sentia como se lhe tivessem tirado um enorme peso de cima.
     -Ento, essa  toda a verdade?
     -Toda a verdade -disse seu pai.
     -Mame, quero-te muito. E quero que saiba. No poderia ter tido uma me melhor.
     Sarah comeou a chorar de novo.
     -Eu te quero muitssimo, Smith. E no verte em trs anos sem saber por que...
     -Prometo que, a partir de agora, vero-me mais -sorriu ele, abraando-a-. Onde est esse bolo de chocolate?
     -Vou por ele agora mesmo.
     -Acompanho-a -disse Jessica-. Por certo, eu adoro a cor das paredes. Ns tnhamos...
     Quando saram do salo, seu pai e ele se olharam.
     -Correu localizou a Jessica?
     -No a localizei. O destino a ps em meu caminho e lhe dou as obrigado por isso.  uma pessoa maravilhosa e estou muito apaixonado. Contaremo-lhes nosso estranho 
encontro enquanto tomamos o bolo... Por certo, papai, me alegro muito de estar em casa.
     -E eu, filho. ides casar lhes?
     -Ainda no o pedi, mas penso faz-lo.  por ela por quem voltei para casa. Eu estava sendo muito teimoso e Jessica me convenceu.
     -Ento, j a quero -riu seu pai, lhe passando um brao pelos ombros-. No posso te dizer quanto lhe sentimos falta de.
     
     Passaram toda a tarde com seus pais e depois foram ver o Kyle e a sua famlia. A Jessica caram bem imediatamente. Os dois irmos desapareceram em uma habitao 
e voltaram pouco depois. Kyle tinha um sorriso nos lbios.
     Sabia que Smith lhe tinha contado que era adotado porque via uma grande paz refletida em seu rosto.
     Estiveram ali uma hora e prometeram voltar o antes possvel.
     -Estou esgotado -disse Smith quando voltavam para hotel.
     -Mas contente.
     -Mas contente, sim -sorriu ele-. Obrigado.
     -por que?
     -Por me fazer voltar para casa. E por me devolver a minha famlia.
     -Tem-no feito voc, no eu.
     Smith a beijou nos lbios.
     -No sabe quo especial  para mim.
      manh seguinte foram visitar av Pete.
     Jessica soltou uma gargalhada ao ver as duas lojas ndias ao lado da casa.
     -O que so, habitaes para convidados?
     -Embora no lhe cria isso, so-o. s vezes meu av dorme aqui -sorriu Smith-. Av! Onde te colocaste?
     -No faz falta que grite, filho. Estou aqui.
     Um homem de cabelo branco apareceu ento no alpendre. Levava duas tranas e um velho peitilho vaqueiro. Av e neto se fundiram em um forte abrao.
     -Quem  esta garota to bonita?
     -Jessica Ou'Connor Smith, av. A luz de minha vida.
     Ela sorriu.
     -Encantada de conhec-lo. Eis ouvido falar muito de voc.
     -No me chame de voc. me chame Cherokee Pete, como todo mundo. Eu gosto, Jessica. E a minha filha tambm, pelo visto. A ver, ofereo-te um trato: se te casar 
com meu neto, dou-te dez milhes de dlares o dia das bodas.
     Jessica soltou uma gargalhada.
     -Tantas vontades tem de cas-lo?
     -Certamente.
     -Diz-o a srio -disse Smith ento-. O que te parece? Dez milhes so dez milhes.
     -Mas...
     -J lhe explicarei isso mais tarde. Av, por que no lhe ensina sua serpente de cascavel?
     -Agora mesmo. Mas esta  nova... a outra morreu. Quer que te ensine minha coleo de flechas?
     Jessica adorava ao Cherokee Pete. Inclusive gostou dos chiles picantes que lhes serve para almoar. No gostava de partir, mas tinham ficado com o Shirley e 
Mack no aeroporto de Dallas s seis, de modo que tiveram que despedir-se.
     - todo um personagem, n?
     -No h ningum como ele -Rio Smith-. Sempre foi muito especial para mim.
     
     Chegaram ao aeroporto s seis menos cinco e, depois de recolher ao Shirley e Mack, foram ao hotel para trocar-se de roupa. Smith os convidou para jantar em 
um restaurante de cinco garfos e brindaram com champanha pelo xito da empresa de bolsas Jessica Milhares.
     -chegamos muito mais longe do que imaginvamos. No posso acreditar que manh vamos assinar um contrato com o Neimann Marcus.
     -Eu tampouco -riu Shirley-. E, como contvel da empresa, devo dizer que somos um xito. Toda graas a ti, Jessica.
     -Mas bem aos contatos do Smith.
     -Eu creio que o campo estava abonado -riu ele-. As bolsas so uma maravilha. Inclusive eis pensado comprar um para mim...
     -Tolo.
     -Brindemos pelo xito.
     Jessica tirou ento duas caixas envoltas em papel dourado com uma cinta azul.
     -Por ser to bons amigos. Sempre estivestes a meu lado nos momentos difceis e lhes quero muito.
     -Mas isto... -comeou a dizer Shirley-. Se meu aniversrio no for at outubro.
     Ambos se olharam, atnitos, ao comprovar que eram dois relgios de ouro. Rolex, nem mais nem menos.
     -Jessica! Isto  muito...
     -No so verdadeiros. So uma imitao que Smith comprou para mim no Matamoros. Olhem, eu tenho outro. A que parecem autnticos?
     -Obrigado -disse Mack, incrdulo-. Esto seguros de que...?
     -So uma cpia, de verdade. lhes diga que so falsos, Smith.
     Ele lhes piscou os olhos um olho.
     -So falsos.
     -por que piscaste os olhos o olho? Smith Rutledge, estes relgios so autnticos?
     -No penso diz-lo.
     
     Captulo Quinze
     
     Smith bateu na porta do quarto de banho.
     -Carinho, o caf da manh.
     -No pode ser. No estou preparada. Tenho o cabelo feito um asco -suspirou ela, abrindo a porta-. No posso fazer nada com estes cachos.
     -Quer que te ajude?
     Jessica levantou os olhos ao cu.
     -Preciso parecer executiva, no uma amante desequilibrada. Importa-te me servir uma taa de caf enquanto me tento arrumar isso -Cmo voy a negarte nada si 
eres adorable?
     -Mas...
     -Carinho, por favor. O ferro me sai pelas orelhas, disse-o o doutor Vargas. Alm disso, estou to nervosa que no poderia provar bocado. Solo quero caf.
     -Como vou negar te nada se for adorvel?
     -No sou adorvel. E tenho o cabelo feito um asco.
     Smith abriu sua mo e ps nela uma cajita.
     -Espero que isto ponha de melhor humor. Vou pelo caf.
     Quando voltou, Jessica no se moveu do stio. A cajita estava aberta e ela olhava os pendentes de diamantes com expresso incrdula.
     -Voc gosta?
     -Como no vo gostar de me? So maravilhosos. me diga que so circonitas.
     -So circonitas -disse Smith, obediente-. O que so circonitas?
     -Diamantes falsos.
     -Eu no quero que tenha diamantes falsos, meu amor. Voc te merece o melhor.
     -Mas devem ser muito caros.
     -Voc gosta ou no?
     -eu adoro mas no posso aceit-los. Daria-me medo perd-los.
     -Esto assegurados. Venha, ponha os Assim lhe daro confiana na reunio e ningum notar que tem o cabelo feito um asco.
     Jessica jogou os braos ao pescoo.
     -O que vou fazer contigo, Smith Rutledge?
     -Eu diria que podemos...
     -Nem te aproxime. Danificaria-me a maquiagem!
     -Pois ento, te mova. quanto antes firmes esse contrato, antes poderei te beijar.
     Uns minutos depois ela saiu do quarto de banho, to preciosa como sempre. Nunca esqueceria seu sorriso quando lhe mostrou os pendentes. Estava para comer-lhe 
Smith queria lhe dar tambm o anel de compromisso, mas seria melhor esperar at depois da reunio.
     Embora isso o punha nervoso. E se lhe dizia que no? No queria nem pensar nessa possibilidade.
     -Preparada?
     Jessica respirou profundamente.
     -Preparada. vamos procurar ao Shirley e Mack.
     
     Jessica e Shirley se despediram dos executivos com um aperto de mos e, uma vez ss no elevador, abraaram-se rendo como loucas.
     -Pode- acreditar? Esse contrato assegura a educao de meus filhos. Poderia deixar de dar classes amanh se quisesse.
     -vais fazer o?
     -Provavelmente, no. J sabe que eu adoro ensinar. E voc? Pensa voltar para instituto?
     -Duvido-o. Prefiro desenhar bolsas.
     -Alm disso, tem que pensar em certa pessoa.
     Jessica sorriu.
     -Isso tambm.
     -Retiro o que pinjente dele. Agora que o conheo um pouco mais, vejo que no tem nada que ver com o Tom.  uma pessoa diferente e me cai de maravilha. Est 
apaixonada, verdade, Jess?
     -Sim -sorriu ela-. Muito.
     -Ento te desejo toda a felicidade do mundo.
     -Obrigado.
     As portas do elevador se abriram no primeiro andar das lojas de departamentos. Smith e Mack estavam esperando.
     -Que tal foi?
     -De maravilha. Deixei-os de pedra com meus conhecimentos financeiros -exclamou Shirley.
     -E eu os deixei de pedra... com minhas pedras -sorriu Jessica, movendo seus pendentes.
     -Mas bem os cegaste -riu seu amiga-. vamos comer?
     Meia hora mais tarde, os dois casais estavam ao outro lado da cidade; na melhor hambur-guesera de Dallas, segundo Smith.
     -Voc gosta de ir de pesca, Mack?
     -Sim, claro.
     -Tm que ir com os meninos a ilha Pai. Ali poderemos pescar tudo o que nos d a vontade.
     -A casa  preciosa e o mar... uma maravilha -disse Jessica-. E tem dois navios enormes.
     -Ento, claro que iremos -riu Shirley.
     -Estupendo. me passe a mostarda, carinho.
     
     despediram-se do Shirley e Mack no aeroporto e tomaram o avio privado para o Harlingen.
     Ela seguia sorrindo enquanto se grampeavam o cinto de segurana. Assinar um contrato em exclusiva com o Neimann Marcus no era algo que algum fizesse todos 
os dias. O que comeou sozinho como um sonho se converteu em uma realidade.
     -Contente? -perguntou Smith.
     -Mais que contente. E muito orgulhosa de mim mesma.
     -D-me o beijo agora?
     -Um e mil. Quero-te muito, Smith.
     -E eu a ti, Jess. mais do que poderia te dizer.
     Converteste-te no mais importante de minha vida.
     - maravilhoso, Smith Rutledge. No s te quero, eu gosto. E a meus amigos tambm... e no pelos relgios.
     -So uma gente maravilhosa. Por isso se merecem um Rolex autntico. Espero que no te zangue.
     -Eu j no me zango contigo por nada. Alm disso, suponho que quando se tem tanto dinheiro como voc, isso tem uma importncia relativa -sorriu ela, apoiando 
a cabea sobre seu peito-. foi um fim de semana estupendo. E eu adoro sua famlia.
     -Quer formar parte dela?
     Jessica se sentou de repente.
     -O que est dizendo?
     -Estou-te pedindo que te case comigo. Pode aceitar a oferta de meu av e ter dez milhes o dia das bodas.
     -No necessito dez milhes de dlares.
     -Casar-te comigo de todas formas?
     -Terei que me pensar isso -Pregntamelo maana.
     -Carinho, no me faa esperar muito. Meu corao no poderia suport-lo.
     -Pois... j o pensei. Casarei-me contigo.
     -Fez o amor em um avio, Jess? -perguntou Smith ento, sorrindo seductoramente.
     -pergunte-me isso amanh.
     
     
     Eplogo
     
     O dia que tinham eleito no podia ser mais perfeito. As laranjeiras estavam em flor e sua fragrncia aromatizava o ar com um delicado perfume. Um arco formado 
por rosas amarelas e flores de flor-de-laranja servia como capela improvisada. Os convidados estavam sentados em cadeiras forradas de linho branco.
     Smith estava sob o arco com o sacerdote e o padrinho, seu irmo Kyle, esperando que aparecesse a noiva.
     Jessica o tinha convencido para esperar um ano porque queria estar muito, mas que muito segura de que estavam fazendo o que deviam.
     E, alm disso, queria que as laranjeiras estivessem em flor.
     Tinham decidido celebrar uma cerimnia ntima, solo com a famlia e os amigos mais prximos. De modo que o av Pete estava encantado de no ter que ficar "um 
desses trajes de pingim".
     Seus pais estavam na primeira fila, junto com o Irish e o pequeno Joshua. Depois deles, o av com sua primo Jackson e sua nova esposa, Olivia. Ao outro lado, 
Matt Crow e sua esposa, Eve, que era a irm do Irish. E a congressista Ellen Crow... toda sua famlia tinha ido ao Harlingen. Todos eles. Sua famlia.
     Smith era to feliz, que estava seguro de no poder s-lo mais.
     Ento comearam a soar os lembre da marcha nupcial e Jessica apareceu no jardim do brao de seu adotivo, Mel.
     Levava um vestido de cor amarela muito plida, quase bege, e um buqu de flores de flor-de-laranja pacota com cintas amarelas.
     Estava preciosa, deliciosa. E radiante... como todas as noivas.
     E o amor que sentia por ela quase o fez cair de joelhos.
     Logo chegou a seu lado e juntos repetiram os votos. Smith pronunciou os sua com voz clara e forte, mas fez um em silncio enquanto lhe punha a aliana:
     "Cuidarei muito bem dela, Tom".
     
     FIM
     
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